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Programação Mindelact 2011

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Diário do Festival

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Com poucas cousas… (re)criar o mundo


Seguem os espectáculos na cidade do Mindelact. A magia continua nos palcos e nem mesmo um domingo solarengo de soberbos corpos e curvas untadas em óleos, cuidadosamente alinhados pelas areias da Laginha, da Baia das Gatas e da Praia Grande demovem o teatro de prosseguir o seu ritual de fascinação e encantamento.


Assim ontem voltaram as crianças ao teatro, ao Jotamonte para ouvir a segunite história de encantar: “era vez uma senhora palhaça muito, muito, muito vaidosa que se chamava Chatonilda. Dona Chatonilda tinha tanta, tanta, tanta vaidade que passava o dia inteiro olhando-se ao espelho a quem pergunta incansavelmente “espelho meu, espelho meu diz-me agora, agora mesmo a quem é a mais bela do Mindelo?”. Dona Chatonilda vivia rodeada dos mimos e da atenção da simpática, ingénua e traquina palhaça Katiuska que por usa vez lhe fazia todas as vontades. A vida corria bem à Dona Chatonilda até ao dia em que tendo saído para fazer compras voltou à casa toda despenteada, desarrumada e feia.  “Espelho meu, espelho meu diz-me agora, agora mesmo a quem é a mais bela do mundo inteiro?”. Dona Chatonilda não gostou da resposta pois o espelho mágico só sabia a verdade dizer. Eis que cabe à palhaça Katiuska salvar à chata Chatonilda da condenação de viver em extrema feiura o resto da vida. Para levar a cabo esta missão Katiuska cotará com a preciosa ajuda das crianças de Mindelo que foram à academia Jotamonte assistir a uma bela e pedagógica peça teatral infantil.”


Isso ou aprender por A mais B numa sessão de risos, gargalhadas e palmas que quem não toma banho, não lava os dentes, não cuida da pele e do cabelo, quem não come frutas e se alimenta bem perde toda a beleza i el ta bá fica fei pa psu! Isso é pedagogia de marca ou então um dedo apontado para o contributo positivo que o teatro educativo pode dar na educação das crianças e na criação de novas mentalidades, de novos cidadão.


Quem disse que Ribeira de Craquinha não é o um lugar mágico? E porquê? Por ser periferia? Corsa Fortes parece não partilhar dessa ideia de um mundo dividido entre “lugares mágicos” e “desertos de magia”. Foi então no Centro Social da Ribeira de Craquinha que esse exímio contador de estórias e mágico deu corpo à rubrica “Estórias com magias”. A tarde começou com a história de uma princesa que desejava o amor verdadeiro, desejava amar um príncipe cujo coração lhe caberia no peito e em cujo peito caberia por sua vez o próprio coração da Princesa. Mais não conto para não tirar magia à estória contada. Apenas vos vou contar o que se seguiu ao fecho da estória: “Magic is Magic”. Corsa Forte fez uma habilidosa demonstração de arte mágica. Perante o olhar fascinado de crianças, jovens e adultos da Craquinha, Corsa Fortes fez com que as crianças não conseguissem ficar sentados tanta era a ansiedade e curiosidade para tentar perceber onde estaria o truque, em que momentos seriam iludidos pelo mágico cabo-verdiano.


“OHHH nah maaa ohh” ouvia-se do público. Palpites intermináveis sobre os mistérios de cada número. No final, depois de um estupendo truque em que se transformou uma garrafa de litro e meio de Coca Cola numa caneca de 33cl de Pepsi uma miúda pedia encarecidamente a Corsa Forte “ ah sinhor, bosé inxiname fazé es cosa!”. É o poder da transformação e da multiplicação pela magia…pelo teatro.


Cilindrados pela magia na Craquinha, os amantes do teatro voltaram ao auditório do Centro Cultural do Mindelo para ver a peça Papirus. Ninguém espera tanto. Ninguém poderia esperar tanto. Somos fatalmente sempre traídos pelas expectativas. Ainda bem. Fazer teatro com gestos, papel, muito papel, papel criativamente utilizado: papel cenário, papel sentimento, papel paisagem, papel coisa, papel abrigo, papel lar, papel vida, papel amor, papel barreiras invisíveis, papel passado, papel pintura, forma e cores. Mais uma vez subiram ao palco do Mindelact dois actores de soberba qualidade. Duas personagens, Pay e Rus, espelhos de toda a humanidade, seus medos e frustrações. Uma noite memorável e esplêndida ao som de um teatro parco em palavras mas exuberante na linguagem, no conteúdo, na essência, na mensagem. Fantasia deliciosa ver o próprio cenário da peça a crescer durante a representação. Tetaro? Sim, teatro feito por uma geração de actores de uma geração de seres humanos que vivendo num mundo de extraordinários recursos materiais e tecnológicos, procuram numa plástica mais essencial, mais primordial exprimir o que de mais autentico nos define como personagens de um evento maior, de um espectáculo no qual jogamos papéis sempre por decifrar e muitas vezes aparentemente sem sentido.

 

Por estes dias acontece do Mindelo estranhas metamorfoses e inconfessáveis revelações…e se calhar deveria ter começado esta narração pelo livro autografado de Mário Fonseca que me veio parar às mãos depois da meia-noite num bar da cidade, mas essas são outras histórias do festival…

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.Abraão Vicente

12/09/2011

 

 

 

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