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Programação Mindelact 2011

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Diário do Festival

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Isto e aquilo…


A cidade do Mindelo e os seus mil sorrisos, gestos e outras tantas dissimuladas cidades uterinas. Aqui somos também terrenos lodosos, planícies canhoneadas em tempos de esquecimento e frivolidade. Quem é Mindelo? Porquê Mindel un vez era sab e agora dizem que nem por isso. E esse un vez nem foi há assim tanto, tanto tempo…exclama Flávio enquanto caminhamos pela cidade noctívaga à procura de um ponto G. Precisamos de um ponto G para falar de teatro? Não será o teatro, a arte o ponto G desta cidade. Pergunto-me.


Somos multidões povoados de memórias. Nossa história como indivíduos raramente ou pouco nos pertence. O sentido das coisas não são coisas, o valor da vida tal como a vemos não se resume ao que permanece no momento em que a vemos, em que somos. Ou in extremis, se quisermos saber o sentido das coisas temos de seguir misteriosos vestígios que nos foram deixados pelos nossos ancestrais…nossos avós, bisavôs, trisavôs…que no fundo eram deuses superiores, seres encantados de um galáxia extinta pelo esquecimento. Para saber “quien somos” temos de empreender uma longa e deslumbrante viagem ao outro lado do mar e ter “Calma, Paciência e Confiança”. Palavras de Catalina Pineda. A voz da terra.


Foi com a estória de “Nopiltzin, a menina das estrelas” que se inaugurou ontem as tardes dedicadas aos contadores de estórias e às suas imaginativas aventuras. A memória de Catalina Pineda, sua extraordinária mestria em tecer o enredo da narração, remete-nos a tempos de menineza quando em Cabo Verde ao invés dos DvDs e do canal Panda, as nossas mais frutuosas aventuras vinham da memória das nossas avós, dos nossos vizinhos, dos nossos familiares mais velhos. Kel vez, ainda me lembro, das noites intermináveis em que entre o medo e o espanto ouvíamos as estórias de feiticeiras e meninos mal comportados que desobedeciam aos pais e se metiam em travessuras e à custa disso aprendiam valorosas lições. Ontem Catalina Pineda abriu uma série de tarde em que a meninada do Mindelo irá de novo viajar por tempos remotos onde a humanidade era uma só raça e partilhava as mesmas origens universais.


Cambando noite adentro o teatro da ilha do Sal brindou o Mindelact com um espectáculo na linha dos contadores de história. No palco principal do CCM o grupo de teatro Dja d’Sal elaborou uma reflexão sobre a centralidade da Água na construção da própria identidade cabo-verdiana. Os actores exploraram os pequenos dilemas clássicos do povo cabo-verdiano, remetendo-nos para temas caros à própria literatura crioula como sendo a seca, a penúria das famílias na míngua do precioso líquido, a emigração e os dramas da mulher que fica na terra enquanto o homem tem de arriscar um futuro melhor. À procura do sonho..


Dilema também tem sido, creio, para o festival Mindelact e a sua direcção artística incluir peças nacionais de qualidade no cartaz deste festival.  Mais do que um festival de peças extraordinárias, vejo o Mindelact como uma mostra/montra de performance de actores de topo. A pedagogia do Mindelact para o país, acredito ser, o facto de elevar a fasquia na arte de representar. Este festival lança o desafio aos actores cabo-verdianos no sentido de aprofundarem o seu olhar quer sobre o trabalho do texto, quer sobre o papel actor, do corpo, da gestualidade, da representação como acto simbólico e central na qualidade final das peças.


Tocar novos caminhos, novas leituras da e na arte. Eis na sua essência a função primordial de um festival de teatro do mundo na ilha da baia grande. Eis o incansável exercício de todo o percurso artístico do engenhoso e perspicaz artista Mito Elias.  “Private Z(oo)m, Tempo dos Bichos” ou 15 poemas de Arménio Vieira, não lidas nem recitadas, mas representadas, 10 Mantras Sonoras ou então um pouco disto e daquilo da tradição musical universal, 400 Imagens fotográficas  a que Mito chamaria recolha selectiva da poluição visual das urbes. 1 Vídeo, claro. Um vídeo que é um golpe de sorte… embora para se ter sorte, diria o outro, é preciso estar no momento certo por onde ela passa. Esse vídeo é, em suma, Arménio Vieira autobiogrando-se numa entrevista por telefone no dia em que recebeu a notícia de ter sido galardoado com o prémio Camões. Tudo isto é muito, mas mesmo assim perguntamo-nos sem pudor: que nome dar à performance de Mito Elias. VIDEOPHONEMA, responde ele mesmo. Neste caso em homenagem ao nosso prémio Camões e às cidades povoadas de sinais, marcos, texturas e…arte.


Ainda à procura de um ponto G à cidade subimos, noite adentro, rua acima para comer croquetes… sentados cruamente no chão.

 

.Abraão Vicente

13/09/2011

 

 

.patrocinadores