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Programação Mindelact 2011

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Diário do Festival

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Simulacro(s)…

 

“Ilusão é quond um cosa ta parse cun cosa ma na ver­dade el é um ot cosa” foi a explicação esclarecedora de um miúdo da assistência à pergunta de Corsa For­tes sobre o que é ilusão. Isso a propósito das tardes de contos no pátio do CCM ou quiçá da viagem ao passado do tempo dos contadores de história que nos povoavam o futuro de seres fantásticos e alucinantes personagens. Na tarde de ontem para além da mira­bolante estória da mulher foca desposada por um humano enamorado houve sobretudo Magia. Em números bem preparados de Magia, Corsa Fortes, desafiou-nos as sensações e nos rendeu à evidência da relatividade das coisas e do mundo. Como que é se transforma uma frágil bola de sabão numa bola de vidro, com que habilidade faz Corsa Fortes com que as cartas o obedeçam e se revelem segundo o seu dese­jo? Acreditar na magia e entregar-se com paixão à ilu­são que pretendemos fazer, este é o conselho de Cor­sa Fortes aos muitos curiosos que se propunham como futuros Mágicos.

 

O palco principal do Mindelact teve ontem um momen­to alto do festival. Não tenho dúvidas que o espectá­culo apresentado ontem por Tanstheater Global, um projecto misto Alemanha/Itália/Cabo Verde marcou de forma penetrante as sensações e os sentido criativo do público e dos muitos artistas que se encontravam na sala. “Sonho em Movimento” ou o simulacro da vida contemporânea. De toda a vida contemporânea. A (des)continuidade entre o que virtual e é real. O que é virtual e o que é real? Ou será a aleatoriedade dos nossos gestos repetidos infinitamente até que se per­ca o sentido. Como é que as coisas ganham sentido? Questionamento de sentido. De sentidos. Sincronia e simultaneidade.

 

Fragmentação e multiplicidade. “Sonho em movimento” para além da apurada beleza, da extrema minúcia dos actos, dos semblantes, da mensagem, da coreografia, da representação, da ima­gem, dos corpos, das cores, dos sentimentos também é um aprimorado elogio a Cabo Verde, aos seus recantos, a S. Vicente, à sua cidade e aos seus deta­lhes. Já dizia Albert Einstein que o cérebro ao se abrir para novas ideias/realidades jamais volta ao seu tamanho original. O palco do CCMjamais voltará a ser o mesmo e a direcção do Mindelactviu-se ontem, por certo, obrigada a elevar a fasquia para os próximos eventos.

Seguindo a senda de simulacros, o Mindelo é por estes dias uma espécie sala de esperas, estação de com­boios, lugar onde estamos provisoriamente e assisti­mos a uma desfilar de caras e personagens. A cada um deles, num exercício de adivinhação atribuímos histórias, estórias, percursos e estados de alma. Reco­nhecemos os actores pela indumentária, pela bolsa com o desenho de marca do festival, na hora do almo­ço sentados à mesa. Tentamos, guiados pelo portfólio da festival, adivinhar as características, qualidade e virtudes dos actores e das suas obras. No caso do grupo da Tanstheater Global tudo se multiplicou e despertou a estupefacção de todos. Cada um dos actores, das suas personagens ganhou outra trans­cendência após o espectáculo. Sima badiu ta fla “dentu di alguém ki alguém.”

 

Saídos em estado de levitação da peça “Sonho em Movimento” a audiência se repartiu entre aqueles que preferiram levar para a casa as sensações dessa fan­tástica obra e aqueles que arriscaram a assistir ao monólogo “O conferencista” no festival off. Nesta peça Sérgio Grilo encarna a personagem José Castelo Costa que explora a partir do título “Os malefícios do taba­co”, tirado do famigerado monólogo de Anton Tché­kov, temas muito variados que vão da culinária de bolinhos de chocolates à natureza rastejante das bara­tas. Foi assim que entre suaves risadas terminamos a noite numa conferência… ou numa espécie conferên­cia, ou se calhar nalguma coisa parecida com uma conferência, de teor quase cientifica…ou pelo menos com ares de científico… dizia eu, foi nesse momento recheado de confidências e desabafos pessoais de um conferencista cedido ao desencanto da sua vida banal que se fechou o pano sobre mais um dia do festival Mindelact.

 

Por estes dias Mindelo é um palco só. O que vemos depende da iluminação de fundo… e da curiosidade das mentes dispostas a serem surpreendidas.

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.Abraão Vicente

14/09/2011

 

 

.patrocinadores