

Simulacro(s)…
“Ilusão é quond um cosa ta parse cun cosa ma na verdade el é um ot cosa” foi a explicação esclarecedora de um miúdo da assistência à pergunta de Corsa Fortes sobre o que é ilusão. Isso a propósito das tardes de contos no pátio do CCM ou quiçá da viagem ao passado do tempo dos contadores de história que nos povoavam o futuro de seres fantásticos e alucinantes personagens. Na tarde de ontem para além da mirabolante estória da mulher foca desposada por um humano enamorado houve sobretudo Magia. Em números bem preparados de Magia, Corsa Fortes, desafiou-nos as sensações e nos rendeu à evidência da relatividade das coisas e do mundo. Como que é se transforma uma frágil bola de sabão numa bola de vidro, com que habilidade faz Corsa Fortes com que as cartas o obedeçam e se revelem segundo o seu desejo? Acreditar na magia e entregar-se com paixão à ilusão que pretendemos fazer, este é o conselho de Corsa Fortes aos muitos curiosos que se propunham como futuros Mágicos.
O palco principal do Mindelact teve ontem um momento alto do festival. Não tenho dúvidas que o espectáculo apresentado ontem por Tanstheater Global, um projecto misto Alemanha/Itália/Cabo Verde marcou de forma penetrante as sensações e os sentido criativo do público e dos muitos artistas que se encontravam na sala. “Sonho em Movimento” ou o simulacro da vida contemporânea. De toda a vida contemporânea. A (des)continuidade entre o que virtual e é real. O que é virtual e o que é real? Ou será a aleatoriedade dos nossos gestos repetidos infinitamente até que se perca o sentido. Como é que as coisas ganham sentido? Questionamento de sentido. De sentidos. Sincronia e simultaneidade.
Fragmentação e multiplicidade. “Sonho em movimento” para além da apurada beleza, da extrema minúcia dos actos, dos semblantes, da mensagem, da coreografia, da representação, da imagem, dos corpos, das cores, dos sentimentos também é um aprimorado elogio a Cabo Verde, aos seus recantos, a S. Vicente, à sua cidade e aos seus detalhes. Já dizia Albert Einstein que o cérebro ao se abrir para novas ideias/realidades jamais volta ao seu tamanho original. O palco do CCMjamais voltará a ser o mesmo e a direcção do Mindelactviu-se ontem, por certo, obrigada a elevar a fasquia para os próximos eventos.
Seguindo a senda de simulacros, o Mindelo é por estes dias uma espécie sala de esperas, estação de comboios, lugar onde estamos provisoriamente e assistimos a uma desfilar de caras e personagens. A cada um deles, num exercício de adivinhação atribuímos histórias, estórias, percursos e estados de alma. Reconhecemos os actores pela indumentária, pela bolsa com o desenho de marca do festival, na hora do almoço sentados à mesa. Tentamos, guiados pelo portfólio da festival, adivinhar as características, qualidade e virtudes dos actores e das suas obras. No caso do grupo da Tanstheater Global tudo se multiplicou e despertou a estupefacção de todos. Cada um dos actores, das suas personagens ganhou outra transcendência após o espectáculo. Sima badiu ta fla “dentu di alguém ki alguém.”
Saídos em estado de levitação da peça “Sonho em Movimento” a audiência se repartiu entre aqueles que preferiram levar para a casa as sensações dessa fantástica obra e aqueles que arriscaram a assistir ao monólogo “O conferencista” no festival off. Nesta peça Sérgio Grilo encarna a personagem José Castelo Costa que explora a partir do título “Os malefícios do tabaco”, tirado do famigerado monólogo de Anton Tchékov, temas muito variados que vão da culinária de bolinhos de chocolates à natureza rastejante das baratas. Foi assim que entre suaves risadas terminamos a noite numa conferência… ou numa espécie conferência, ou se calhar nalguma coisa parecida com uma conferência, de teor quase cientifica…ou pelo menos com ares de científico… dizia eu, foi nesse momento recheado de confidências e desabafos pessoais de um conferencista cedido ao desencanto da sua vida banal que se fechou o pano sobre mais um dia do festival Mindelact.
Por estes dias Mindelo é um palco só. O que vemos depende da iluminação de fundo… e da curiosidade das mentes dispostas a serem surpreendidas.
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.Abraão Vicente
14/09/2011
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