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"Nação Teatro" - a opinião do historiador António Correia e Silva

 

O livro de João Branco provoca vários desconcertos a um aprendiz de cientista social.

Primeiramente, pela coragem em se aventurar numa área na qual historiador nenhum se atreveria a lançar-se de ânimo leve. De facto, João Branco, ao propor-se escrever nada mais nada menos do que a História do Teatro em Cabo Verde, mostrou que é um desbravador de grande têmpera.

O segundo desconcerto provém da identidade do autor, um director e actor de teatro. É sabido que os artistas preferem praticar a interpretar o que fazem. Raramente encontramos músicos que sejam musicólogos, escritores fazendo crítica literária, pintores que sejam teóricos de Arte e assim por diante. O facto de João Branco ser simultaneamente agente e estudioso do teatro, observador e observado, sujeito e objecto coloca-o perante a aparente violação de um dos princípios mais sagrados das Ciências Sociais qual seja o princípio da objectividade, garantida pela clara separação entre o sujeito e o objecto do conhecimento.

Assim sendo, é justo perguntar se a circunstância de o autor ser simultaneamente agente teatral e teatrólogo não terá contribuído ab initio para limitar as possibilidades deste estudo. O livro em exame demonstra inequivocamente que Não! Estamos, sim, mau grado tal co-incidência, ante um estudo de inegável valor científico. Dotado de rigor metodológico e epistemológico, apesar da intimidade do J.B. com o seu objecto.

Aliás, num acto de fé, melhor dizendo de auto-definição, mas também de boa epistemologia, o autor abre o livro, fazendo questão de deixar claro que “ se procurou evitar um julgamento qualitativo, que não se pretendeu rotular o que é bom e o que é menos bom, pois esse é um problema de gosto, de sensibilidade, de julgamento individual, incompatível com a natureza desta obra.” Nas páginas deste livro há na verdade um  esforço consciente por parte do autor em se abster de emitir  opiniões éticas e estéticas relativamente a obras, personagens e períodos analisados. Esforço notável na medida em que vivemos numa sociedade propensa à opinião.

Se o autor anula em grande medida as hipotéticas desvantagens da sua pertença ao meio teatral, nem por isso abre mão das vantagens, bem reais, que tal facto o proporciona para melhor e mais rapidamente entender as fontes, os personagens, os condicionamentos existentes em diferentes momentos deste percurso reconstituído. De resto, ele alcança um nível de entendimento dificilmente acessível a um historiador sem a sua vivência do fenómeno. A Antropologia, desde Malinowski, cultiva as vantagens da aproximação e da imersão no meio, através do famoso método de observação participante. Em João Branco, o método é utilizado a pleno, sobretudo para os últimos períodos históricos estudados neste livro. Fica apenas a dúvida se se trata neste caso de facto da observação participante ou da participação observadora.

Outro desconcerto é que, não sendo historiador “en titre-de-office”, João Branco revela-se aqui como um autêntico historiador cabo-verdiano. Historiador e Cabo-verdiano, não por título académico e por nascimento (visto o autor ser um jovem director de teatro que desembarcou no Mindelo num belo dia do ano da Graça de 1991 vindo da cidade do Porto) mas pela acção, pelo fazer e (porque não?) pelo querer. De resto, nas sociedades modernas, a identidade provém muito mais do que se faz e se constrói do que do nascimento e das inscrições meramente formais.

Ainda no rol dos desconcertos. Geralmente quando os historiadores académicos lêem trabalhos de “historiadores auto-didactas”, vá lá, de amadores, passe o termo e a sua ambiguidade, têm alguma condescendência face à desorganização do texto, à fluidez do método, à imprecisão conceptual, à mistura, muito frequente, do fait-divers com  informações essenciais para a compreensão inteligível dos acontecimentos, etc. Essa condescendência permite aos historiadores de extracção universitária realçar sempre a superioridade da formação académica, da pertença ao círculo da consagração institucional face ao trabalho amador. Isso mesmo reconhecendo algum valor a tais trabalhos. Não é de todo o que se passa com este livro no qual o método constitui uma das forças.

Depois de definir o objecto, a perspectiva e a postura, o autor enfrenta então a questão dos dados, tecnicamente chamados de fontes. João Branco faz um levantamento exaustivo das fontes, buscando-as com candeeiro na mão, como soe dizer-se. Tarefa homérica, numa sociedade demasiadamente oral para o desespero dos historiadores. Situação que fica agravada pelo tipo burocrático das fontes existentes. Sabemos que o Estado, o principal produtor da documentação escrita, interessa-se preferencialmente pelas informações fiscais, judiciais e militares e só secundariamente atenta nas informações da vida cultural e de lazer. Perante a escassez da informação escrita sobre vários períodos da História do Teatro, o autor explora as poucas fontes existentes tão completamente quanto possível, ao mínimo pormenor, com um cuidado abeirando o carinho, a fim de conseguir a sistematicidade da análise.

Além de cotejar o que existe, a pesquisa impõe-lhe a necessidade de criar fontes. Daí o livro fazer recurso sistemático à “oral history”. A entrevista, o depoimento, as memórias constituem pedras importantes sobre as quais João Branco vai saltando a, afinal longa e caudalosa, ribeira do teatro em Cabo Verde. É deste trabalho árduo e aturado que surge assim o perfil, o esboço do caminho, estribado, volto a dizer, em depoimentos, artigos de jornal, entrevistas a observadores privilegiados. Mário Matos, Francisco Lopes da Silva, Francisco Fragoso, Luís Romano são alguns dos muitos entrevistados neste livro. Outras vezes, o autor vale-se de reminiscências, de informações de segunda mão e até de programas de televisão. Os actores teatraisna acepção lata do termo  falam no livro de João Branco e é sobre essas falas, digamos assim, que o autor vai construindo interpretações e conclusões acerca do percurso do teatro cabo-verdiano, sem nunca no entanto as ocultar. Não admirem, pois, se este método for de muito agrado de alguém, como eu, que trabalha em História. É que a matéria-prima sobre a qual J.B. ergue as suas interpretações (estarei a ser interesseiro?) é reutilizável. Como na Lei de Lavoisier, numa historiografia a informação não se desperdiça. E quanto ao compulsar de informações o livro em análise só tem paralelo no monumental Os Bastidores de José Vicente Lopes.

Do método aproximemo-nos agora do tema. O título pode ser um bom meio de aproximação. Aliás, o título é outro desconcerto: Nação-Teatro. Título sugestivo e ambíguo, por possibilitar interpretações diversas. Diria igualmente: título rico, tão rico que não se esgota na obra. Qual a relação entre Nação e Teatro? O projecto do autor consiste em ver a gestação do teatro nacional ou, antes, em observar a formação da nação, através do teatro? Seja como for, os tempos, os compassos da Nação são aqui correlacionados com os do teatro. As duas entidades parecem partilhar historicidades semelhantes. Há um paralelismo sempre presente, ainda que nunca explicitado, entre os dois entes. Vejamos em traços muito largos como é que o autor organiza a história do Teatro em Cabo Verde.

Comecemos então pela História. Ou melhor, pela Pré-História, quando o teatro ainda não era um campo autónomo. Quando se encontrava integrado e imerso nas actividades rituais, festivas e lúdicas do quotidiano. É o I acto, “Como tudo começou”. Temos que lançar mão de uma concepção alargada de actividade teatral para podermos incluir nela certas manifestações lúdicas e cénicas. É o que João Branco faz. Tudo é teatro, se concordarmos com a afirmação proferida pelo autor a dado passo, que “… a peça de teatro é a que tem um enredo, personagens, um cenário e um público”. Essa redefinição conceptual permite abordar tempos e manifestações que uma conceptualização mais restrita e restritiva, mas também mais etnocêntrica da actividade, não consentiria. Neste ponto, a atitude do autor é antropológica, pois receptiva à diversidade. O campo está assim aberto. J.B. vai ter com os teatros de rua de outros tempos. O tempo da História longínqua. Antes do século XIX e da monarquia constitucional que, sob a influência das Luzes, inaugurou um movimento de modernização da sociedade cabo-verdiana, que, como  veremos mais a frente, fez surgir entre nós sociedades recreativas e culturais. Portanto, João Branco começa pelo tempo antes das reformas oitocentistas que lançam o ensino público, a imprensa, a burocratização do Estado e as elites letradas.

Neste tempo inicial, mas matricial por imprimir marcas indeléveis à nossa identidade colectiva,  o autor navega num espaço enevoado, onde qualquer informação vale ouro. Detenho-me aqui, pela importância, é certo, mas também e, peço que compreendam esta minha preferência, pela paixão que nutro pela parte escravocrata da nossa História.

Nos séculos XVI, XVII e XVIII, a sociedade estava imbuída de uma imensa dose de teatralidade. A antiga sociedade cabo-verdiana (que definiríamos simultaneamente de escravocrata, mercantil, crioula e católica) é, sob muitos aspectos, teatralizadora dos momentos centrais da vida. Nela, o teatro e a vida social se confundem e se interpenetram. Há um gosto – exagerado aos olhos de hoje – de encenação pública e ritual. A Ribeira Grande, a actual Cidade Velha, foi um grande palco. Imperava na urbe um catolicismo, mas também uma vida civil e militar, barrocos. A tomada de posse dos governadores e ouvidores vindos do Reyno, aguardada sempre com ansiedade, requeria um protocolo que envolvia a encenação de pessoas, da indumentária, dos gestos e dos lugares. É o teatro do poder. Exigiam-se roupas à maneira das cortes europeias. Fazia-se em semelhantes ocasiões um percurso urbano determinado ou pré-determinado. Buscava-se o prestígio e o fascínio pela galantaria.

A igreja, por sua vez, sempre se serviu do teatro para conquistar leigos, sobretudo quando vinham de outras culturas e outras religiosidades. O bispo, o cabido, as ordens religiosas serviram-se do teatro para cristianizar e doutrinar, é verdade. Mas não havia provavelmente dimensão da vida que fosse objecto de maior teatralização do que a morte. A morte na velha Ribeira Grande era uma opera encenada. Os morgados, os grandes comerciantes ou mesmo gente da governança planeavam o seu funeral ao pormenor: actores principais, secundários e figurantes; canções, choros, preces e novenas; guarda-roupas especiais e percursos delineados. Tudo parece espectacular e ostentatório.  O teatro da morte era arma contra a ideia absurda da morte, que é a do olvido, da corrupção do tempo, do desaparecimento eterno. A teatralização da morte visa perpetuar a memória da vida dos grandes, “enquanto o mundo durar”, como se pode ler nos imensos testamentos a que tive acesso nas minhas buscas históricas. Isso era o que se pode chamar de teatro “par le haut”.

Havia igualmente na Cidade Velha o teatro social dos pobres e dos privados de poder. É o teatro “par le bas”. Os forros organizavam o foro (a cinza), o Reynado (com as suas hierarquias, personagens, indumentárias, desfiles) e as zambunas. Neste ponto, J.B. apoia-se em autores como José Maria Semedo e José Luís Hopffer Almada para resgatar as sementes da Nação e do Teatro. É para o Reynado, talvez mais do que para a Tabanca, que vai o crédito de ser, segundo João Branco, “o primeiro fenómeno consciente de teatralização genuinamente cabo-verdiano”.p.136. O Reynado no século XVIII está a meu ver seguindo os movimentos da população um pouco por todo o Cabo Verde. Encontrámo-lo sob perseguição atenta e empenhada do Governador Saldanha Lobo, homem apostado em combater a hegemonia da gentilidade em Cabo Verde. Ele não o sabe, mas nada pode atalhar este movimento lúdico-teatral, porque portador do germe da matriz da nação. O autor reproduz na página 70, a proibição do mesmo teor decretada por José Gabriel Cordeiro, Administrador do Concelho em 1866, cerca de um século depois de Saldanha Lobo. A reedição da proibição só prova a força de resistência das manifestações lúdicas e cénicas populares.

Passemos, sim, à outra fase. Ao segundo momento do I acto. A Sociedade Liberal, sob a influências das Luzes, da ideia da cidadania, do ideário da integração das colónias numa grande fraternidade que seria o Império Português, vai dar um novo impulso ao teatro no arquipélago. Estamos sob o impacto da Imprensa e da criação recente do Sistema Escolar. Do surgimento dos clubes de Maçonaria. Da instituição das eleições. Estamos no tempo do teatro feito nos clubes e nos grémios, impulsionado pelas sociedades recreativas. A Praia é o centro. Nela sobressaem dois teatros: Teatro Maria Pia de Sabóia, inaugurado a 25 de Junho de 1863 e o Teatro Africano (1868), gerido pela Sociedade Dramática do mesmo nome. Este último vive até os anos 50 do século XX. Um recorde de longevidade. Durante este período que vai da Monarquia Liberal à República, o teatro vive sob tensão, dividido entre o texto local e os modelos clássicos universais, entre a identidade e a universalidade. A prática do cânone que, passe o pleonasmo, canoniza e consagra as elites locais aos olhos da metrópole compete com a recriação do vivido que as legitima ante o povo e a sociedade locais. Eugênio Tavares e toda a geração que João Nobre Oliveira atribui o seu nome vivem sob esta dupla atracção. Há quem veja nisso a especificidade sociológica das pequenas burguesias em contextos coloniais.

Com mais ou menos eventos de permeio chegamos aos anos de implantação do Estado Novo durante os quais S. Vicente parece ser agora a capital do teatro em Cabo Verde. Os clubes como Sokols (1934-1938), Troupe Cénica (vinda com o corpo expedicionário), Grupo Cénico Amarante, constituindo-se ou não à volta do Eden Park, o grande palco da época, marcam a vida da Cidade do Mindelo e de Cabo Verde. O autoritarismo emergente não tarda a ver-se criticada por autores que se valem do teatro para o fazerem. Sérgio Frusoni e João Cleofas, os dois grandes autores desta fase, driblam habilmente a censura e nisso aliás reside grande parte da graça dos seus textos que tanto furor fazem sobretudo em versão radiofónica. Na Praia, a sátira do quotidiano e do espírito do novo tempo que se instalava fica a cargo do Sr. João Pirolito e do Sr Prazeres Pires, se bem que mais deste do que daquele. O contexto da ditadura pesa fortemente sobre o teatro que se faz no arquipélago.

O derrube do Estado Novo em Abril de 1974 abre espaço à expressão livre e enfática dos ideais de independência, expressão que se estriba na impulsividade afirmativa da identidade da nação cabo-verdiana. A música, o teatro e a poesia convertem-se em instrumentos de mobilização política. Assiste-se então à explosão de iniciativas teatrais, que trazem para a boca de cena aspectos da cultura popular, a força do crioulo, além dos ideais revolucionários. Kaoguiamo e o Grupo di Iniciativa Teatral são exemplos desta fase. A expressão mais acabada desta nouvelle vague aparecerá no entanto alguns anos mais tarde. Será Korda Kaoberdi, dirigido pelo encenador Francisco Fragoso. Ainda assim, há que dar o devido realce, como de resto faz João Branco, ao Teatro Experimental Rubom Manel, da Juventude Africana Amilcar Cabral, JAAC, sob a dinâmica direcção do hoje actor Horácio Soares Santos bem como  à OTACA de Assomada, dirigido por Narciso Freire.

Os anos 90 não são apenas os anos de retoma da actividade teatral, em declínio à medida em que se caminhava para o fim do ciclo revolucionário, como também do desafio da institucionalização da actividade teatral na vida social cabo-verdiana. O Mindelo é outra vez capital e João Branco, liderando o grupo teatral do CCP é protagonista, talvez a par do grupo santantonense Juventude em Marcha. É o III acto, ainda em aberto, que o autor designa de Revolução Tranquila.

O livro tem o prefácio de um outro encenador: Francisco Fragoso. Um gesto, antes de mais, carregado de simbologia. Há entre nós uma atitude, quase automática, de contestar o antecedente. Temos por hábito pensar que nada de profundo pode ter sido feito antes de nós. Temos por norma praticar um género de contestação pouco compatível com respeito e admiração. Alguém me dizia há dias que não possuímos uma cultura de reconhecimento. Isso é verdade sobretudo entre gente que partilha a mesma profissão. Não é fácil o convívio entre os oficiais do mesmo ofício, é sabido, separados entre nós pelo ciúme, intriga e rivalidade. Este prefácio significa que as gerações, tanto no teatro como na nação, devem trocar experiências e se reconhecerem. Pobre da nação ou da arte que precisa destruir o antigo para criar o novo.

João Branco contribuiu para dar qualidade ao nosso meio cultural.

Fonte: António Leão Correia e Silva

 

 

Destaque - lançada a História do Teatro em Cabo Verde

Primeiro livro da colecção Estudos e Pesquisas do Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, «Nação Teatro: História do Teatro em Cabo Verde» é, segundo Francisco Fragoso, «uma obra em que os seus elementos integrantes – Prólogo e Actos/Cenas – constituem um todo bem interligado, em que cada um de per si, se impõe, como uma parte, com uma personalidade estruturalmente individual, gozando de uma autonomia relativa, sem se destoar, contudo, quando encarado isoladamente, numa visão duma pertença de uma totalidade maior».

Um feito que Fragoso classifica como «um bom expediente artístico» e que atesta «intelectualmente o fecundo engajamento do João no atinente aos meandros desta nobre e sublime arte que é o teatro» e que agora, resumido em 438 páginas, é «o corolário lógico de uma persistente faina (leia-se, labor de experiência feita) de mais de uma década, a despeito das inerentes vicissitudes que uma tal missão comporta».

E é o próprio autor deste ensaio, cuja capa é ilustrada por uma pintura da artista plástica Luísa Queirós, que na introdução nos elucida sobre «as dificuldades metodológicas decorrentes da própria especificidade da produção cénica, dado o carácter efémero e mutável das apresentações e da raridade de documentação».

Nada que, entretanto esfriasse o entusiasmo de João Branco, conforme Zelinda Cohen, apresentadora de «Nação Teatro: História do Teatro em Cabo Verde»: «Tem todas as chances de ser um livro referência, um marco, pois descortina de uma forma sistemática mas entusiástica uma realidade mal compreendida e que pode fazer com que as pessoas que gostam de teatro saibam como é que essa arte se desenvolveu em Cabo Verde».

Aliás, foi com esse intuito que João Branco mergulhou nesta aventura. Segundo o autor, «o presente trabalho parte da constatação de que não havia, até hoje, uma obra minimamente aprofundada que nos capacitasse a apreender o teatro cabo-verdiano, nas suas mais diversas facetas e que justificasse de alguma forma, esse mistério que é a paixão que o povo de Cabo Verde nutre pelo teatro desde os tempos mais remotos».

Empreitada que o encenador e director artístico do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo procurou realizar, nas suas palavras, «sem um julgamento qualitativo», mas antes obedecendo a «fundamentos objectivos, o que poderíamos designar de importância histórica». Tarefa nada fácil de alcançar dado que, segundo Branco, «em muitos dos eventos tivemos uma intervenção directa e apaixonada».

Teresa Sofia Fortes

Semana On Line

 

Uma História que faz História

O livro Nação Teatro - História do Teatro em Cabo Verde, de João Branco, escreve o autor na nota introdutória, partindo da constatação de que não havia, até hoje, uma obra minimamente aprofundada sobre o teatro cabo-verdiano, procurou “fixar, para a posteridade, o maior número possível de informações sobre o teatro cabo-verdiano”.


Ao longo de 10 anos de paciente e rigorosa investigação, quando ainda não pensava na sua publicação, o luso-mindelense, dramaturgo, encenador, actor e presidente da Associação Artística e Cultural Mindelact, João Branco, foi compilando um vasto acervo à volta do teatro cabo-verdiano constituído essencialmente por documentos oficiais, notícias na imprensa escrita, monografias dedicadas ao teatro cabo-verdiano, arquivo áudio de estações de rádio, a colecção da revista “Mindelact- Teatro em Revista”, que se publica desde 1996, e entrevistas e depoimentos de actores, dramaturgos, espectadores, jornalistas e técnicos.


Nação Teatro - História do Teatro em Cabo Verde é, por assim dizer, o resultado desse aturado inventário da nação teatral cabo-verdiana. “Tinha esse material todo que utilizei, de uma forma que procurei fosse a mais rigorosa possível, de maneira que em cada um dos cinco actos tivesse uma abordagem a mais justa possível no que diz respeito à realidade histórica do teatro em cada período em concreto”


Não passará desapercebido ao leitor que o dramaturgo João Branco tenha dividido o seu bem documentado ensaio num prólogo e cinco actos – é a configuração de uma peça de teatro, na sua estrutura clássica. Se o prólogo é uma espécie de declaração de amor a uma arte que muito lhe deve em Cabo Verde, nos actos, o autor retoma o rigor científico para nos acompanhar através do teatro cabo-verdiano, desde os seus primórdios até ao que designa de revolução tranquila.


Um papel de relevo cabe às entrevistas realizadas pelo autor, que pela importância das informações obtidas, são, na sua opinião, uma das partes mais elucidativas da obra. João Branco cita Francisco Fragoso, Rui Araújo, Jorge Martins, Manuel Estêvão, Espírito Santo da Silva, Ano Nobo, Manuel Nascimento Ramos, Sérgio Gomes, Mário Lúcio, entre outras pessoas ligadas ao teatro.

 
Uma das primeiras conclusões do livro de João Branco é a situação temporal do nosso teatro. O autor defende que as manifestações teatrais começaram praticamente com o início do povoamento das ilhas. João Branco, baseando-se em António Carreira e Moacyr Rodrigues, argumenta que os primeiros padres, responsáveis pela educação de uma certa elite, utilizavam o teatro, nomeadamente dramatizações de excertos da Bíblia, como forma de cristianização. Entretanto, o aparecimento do teatro como actividade lúdica só surge nos últimos anos da vigência da monarquia em Portugal, “curiosamente na cidade da Praia, onde foram construídos, no mesmo quarteirão, dois teatros de raiz” - o teatro Dona Maria Pia Sabóia e o Teatro Africano, informa o investigador.

 
Existe um Teatro Nacional em Cabo Verde? Da leitura do quinto e último acto do livro, ele existe, porque sustentado por uma dramaturgia vasta e riquíssima que, entretanto, “precisa de maior divulgação e de uma aposta séria no registo e edição desse corpus”, defende João Branco.


Nação-Teatro/ História do Teatro em Cabo Verde será lançado dia 23, sexta-feira, na Biblioteca Nacional, na Praia. A apresentação estará a cargo do historiador António Correia e Silva. Representará a casa editora, o Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, a Directora do Livro, Zelinda Cohen, que, na altura, apresentará aos praienses as novas colecções temáticas da IBNL.


Nação-Teatro… foi lançado no Mindelo na segunda semana de Julho. O autor tem programado para o próximo mês o seu lançamento em Lisboa. A obra será então apresentada ao público pelo médico e dramaturgo cabo-verdiano Francisco Fragoso, que assina também o prefácio da obra.


António Monteiro

Fonte: Expresso das Ilhas

Imagens do Lançamento

 

 

Acto de lançamento do livro no Mindelo

Jorge Martins, Manuel Estevão 

e João Branco 

 

O livro foi apresentado pela historiadora Dra. Zelinda Cohen, na presença do Dr. Joaquim Morais, Presidente da Biblioteca Nacional de Cabo Verde, editora da obra
 

 

O autor com Tcheta, importante dinamizador do teatro popular crioulo no período colonial

 

 

 

 


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