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Peças de Mário Lúcio no 2º volume
da colecção Dramaturgia Nacional |
A Associação Mindelact tem no prelo o 2º volume da colecção
Dramaturgia Nacional, desta feita dedicada às peças de Mário
Lúcio Sousa, mais conhecido como músico, mas que desde 2001
se tem revelado como um valor seguro da dramaturgia
cabo-verdiana. Depois das peças do mindelense Espírito Santo
e Silva, lançadas no final de 2006, este segundo volume
contemplará as cinco peças até à data escritas por Mário
Lúcio. A obra, editada com o apoio da Biblioteca Nacional de
Cabo Verde, tem o seu lançamento previsto para o próximo mês
de Fevereiro, na cidade da Praia. Aproveite para recordar
uma entrevista do dramaturgo, sobre a sua forma de encarar a
escrita teatral.
Mário Lúcio Sousa lançou-se no
mundo da dramaturgia quando em 2001, a convite do encenador
João Branco, escreveu a peça «Adão e as Sete Pretas de
Fuligem», uma encomenda para o Porto 2001 - Capital
Europeia da Cultura.
A partir daí nunca mais parou.
Escreveu «Salon», em 2002, para o Grupo de Teatro do
Centro Cultural Português - IC, peça também encenada por
João Branco; «24 horas na vida de um morto» ,para
João Paulo Brito, encenada no âmbito do Curso de Formação de
Actores promovido pelo Centro Cultural Português na cidade
da Praia, em 2005; «Sozinha no Palco», encenada por
William Gavião, para a companhia portuguesa Cair-te Teatro
Reactor (2007); e, finalmente, o inédito «Diálogos com
Satanás», segundo o autor, escrita para ser encenada e
interpretada por João Branco.
São estas as cinco peças que
serão agora compiladas num único volume e que darão vida ao
2º volume da colecção Dramaturgia Nacional, editada pela
Associação Mindelact, com o apoio da Biblioteca Nacional de
Cabo Verde. O seu lançamento está previsto para o próximo
mês de Fevereiro, na cidade da Praia.

Imagem
da peça «Salon»
Recorde agora, a entrevista
efectuada com Mário Lúcio Sousa, a propósito do seu trabalho
na área da dramaturgia:
«A dramaturgia é o único
espelho literário que existe.»
Pergunta:
Para início de conversa gostaríamos que nos dissesse qual a
sensação que fica depois da experiência que teve na
qualidade de escritor na área da dramaturgia.
Mário Lúcio:
A nível da expressão literária foi para mim uma experiência
nova e só se me comparou a quando se assiste ao nascimento
de um filho. Foi exactamente a mesma impressão na medida em
que a pessoa escreve – ou concebe – e depois vê toda essa
pretensão ou desígnio convertida em vida.
P: Com a encenação.
Mário Lúcio:
Precisamente, com a encenação. Portanto o texto escrito é
uma imaginação, uma viagem para um universo de todo o modo
abstracto, e de repente nós vemos as pessoas, as
personagens, os espaços a nascerem dessa imaginação e a
tomarem corpo e dinâmica próprias. Às vezes nos sentimos
também surpreendidos, é como se esse processo fosse algo
desgarrado da nossa criação original.
P:
E poder-se-á dizer que é um pai, desses cuidadosos, que
acompanham todo o processo?
Mário Lúcio:
Eu tive a sorte de trabalhar com o João Branco e com uma
excelente equipa, e eles permitiram-me desfrutar de
experiências e situações artísticas que não faziam parte do
meu horizonte, das minhas aspirações. Uma grande experiência
para mim foi ter assistido ao casting, à escolha dos
actores, e o João consultava-me e estivemos quase perto de
estarmos praticamente em consenso. Também houve outras
situações muito interessantes, como quando assisti o início
dos ensaios e também ao ensaio para a imprensa, ainda sem
público, dois ou três dias antes da estreia. E todo esse
processo foi como realmente anunciar uma gravidez e depois
termos essa possibilidade de acariciar todo esse processo de
gestação até ver junto com o mundo essa entrega à luz, que é
uma expressão que até cai bem ao teatro...
P:
No caso concreto de “Adão e as Sete Pretas de Fuligem” acha
que esse filho, o Adão, parece-se consigo ou com a mãe?
Mário Lúcio:
Acho que tem das duas coisas. A concepção é importante mas o
João tem uma forma muito própria de interpretar os textos e
essa forma vai permitir, agora que nos conhecemos melhor, e
ainda dentro dessa metáfora, de celebrar o matrimónio,
porque agora já tenho outras preocupações. Por exemplo,
antes eu tinha que fazer imensas descrições dos cenários,
das movimentações dos personagens, e agora posso ocupar-me
melhor com o enquadramento dos diálogos. O João encontra
soluções estéticas muito elevadas para os textos, que no
papel tem todo o cabimento, mas no palco não pode haver
situações forçadas. Ele tem soluções que não estão previstas
no texto, essa é a sua forma de trabalhar. Ele mais do que
aplicar um texto, respeitando as palavras todas e as ideias
todas, cria situações que complementam a interpretação
desses textos. De forma que Adão tem muito do pai porque
respeita toda a fisionomia, mas no comportamento, pode-se
dizer que é um filho da mãe (risos).
P:
Deve-se entender que houve momentos de alguma cedência da
parte do pai...
Mário Lúcio:
Exacto. Mas foi natural, pois eu sempre trabalhei em grupos.
Enquadro-me bem em trabalhos de grupo. Eu vivi desde miúdo
num quartel militar, fiz toda a minha carreira universitária
em Cuba, onde vivíamos várias pessoas no mesmo apartamento,
com toda aquela educação comunitária e depois entrei no
Simentera, ou seja, sempre partilhei os meus conhecimentos e
os meus sentimentos com um grupo. O texto inicial era um
texto muito longo, pois eu tinha-me proposto fazer uma
leitura da exclusão no seu sentido mais amplo, até à
auto-exclusão, mas também queria falar de uma coisa que
acontece muito hoje em dia que é a exclusão política, e que
é muito violenta. Isto é, os políticos servem-se uns aos
outros e estão todos dentro do mesmo saco. Quando se
discorda, aquele que foi bom ontem é uma víbora amanhã. Isso
em África é muito comum. Eu quis tratar todo o processo das
ex-colónias, onde houve muita exclusão, sobretudo em Angola,
e então o texto original era muito longo, daria para cerca
de duas horas e meia de teatro. O João sugeriu-me que havia
um momento alto na peça e que gostaria que o final fosse
ali, e então o texto ficou, poderá haver outros encenadores
que queiram trabalhá-lo. Foi só uma forma de trabalhar em
conjunto e eu prontifiquei-me em trabalhar a escrita para um
final específico, que ele sugeriu. E foi muito bom, porque
foi um momento muito criativo para mim, substanciado na cena
final dos santos, que me deu imenso gozo artístico, entrar
nesse mundo e aprender muito com isso. Depois o final acabou
por ser mesmo uma escrita minha, mas a partir de uma
proposta do resto do grupo.
P:
Portanto a sua própria vida deu-lhe um trunfo que o ajudou a
entrar no mundo do teatro, que é um mundo do colectivo.
Mário Lúcio:
Sim. Foi uma experiência muito gratificante a vários níveis,
até porque normalmente a criação é um acto solitário. E todo
o meu processo de criação tem sido um acto solitário embora
na hora da execução e da experimentação venha a ser um
processo de discussão, de partilha. Mas com o teatro, neste
caso específico, directamente ligado a métodos do encenador,
deu-me a possibilidade de me sentir um escritor de
marionetas, que também as houve no espectáculo. Eu sentia
que os actores também eram meus, eu tinha ajudado a
criá-los...
P:
Podia manuseá-los...
Mário Lúcio:
Exacto. Isto deu-me vários amigos, várias paixões. Ainda
hoje tenho uma enorme paixão por essa obra, pelo encenador e
pelos actores. Passaram a fazer parte da minha vida, porque
foi um momento muito importante de encontro de seres
humanos.
P:
Temos estado a falar mais do período pós produção,
gostaríamos de saber no que diz respeito concretamente à
parte da criação, à parte solitária, como disse, se foi
também gratificante, ou havia mais a preocupação do
compromisso assumido?
Mário Lúcio:
Foram as duas coisas, na medida que eu nunca trabalhei sob
encomenda. Mesmo no caso do Sementera, gravámos de dois em
dois anos porque tenho a preocupação de deixar que as
músicas nasçam. Na minha estrutura mental os prazos tem
alguma importância, porque incitam-me, vão provocando
ideias. E quando recebi esse convite do Porto 2001, e o João
telefonou-me e falou comigo, eu respondi, porque gosto desse
tipo de colaborações, mas também queria aceitar esse
desafio. Não era só um desafio de compromisso, mas de
escrever um texto para ser encenado e mais do que isso, ir
ao encontro de um tema que me foi proposto. Também gosto de
trabalhar nesse sentido, compor para filmes, por exemplo.
Fiz a banda sonora de “Adão e as Sete Pretas de Fuligem”
porque é bonito nós irmos de encontro às aspirações do
outro. E eu aceitei, e comecei a pensar no que é que se
poderia fazer. Foram vários meses de reflexão, geralmente à
noite, um sono acordado que origina um cansaço terrível, e
surgiram várias ideias nesse período. Pensei em vários
cenários. Por exemplo, que poderiam ser sete mortos, o que
era uma coisa engraçada, porque começava a meio metro do
piso do palco, portanto toda a encenação seria subterrânea e
os mortos levantavam-se e contavam em perspectiva o que lhes
tinha sucedido na vida. E aí havia várias diferenças,
diversidade humana, diversidade de vivências. Mas acabei por
mudar de ideias porque era um cenário um tanto ao quanto
macabro, embora fosse certo que o João daria àquilo toda a
comicidade merecida, mas a mim o caixão é algo que me choca,
e desisti da ideia, porque esse simbolismo poderia também
afectar a sensibilidade de outras pessoas. Foi assim que
surgiu a ideia da parábola da Branca de Neve e os Sete
Anões.
P:
Ainda um pouco mais sobre a parte criativa, essa parte de
pensar nos personagens, criar para o teatro, o escritor
nessa outra expressão, que é a dramaturgia. Fica-lhe a
vontade de repetir essa experiência?
Mário Lúcio:
Sim, hoje em dia sim. Até porque já sei minimamente navegar
e sobretudo quando se trabalha em parceria com um encenador
desde o princípio. Eu confesso que tinha uma ideia da obra,
escrevi a sinopse, eu e o João falámos muito, em cafés e
noutros locais, e foi-me dando ideias. Mas chegámos a um
ponto que foi também de sofrimento, quando eu não tinha
soluções técnicas para trazer o personagem à cena. Havia
desembarques de personagens em Lisboa, chegadas de barco ao
país de origem, discussões numa praça, uma discoteca, havia
desfiles militares, cenas antes da independência, cenas
dezoito anos depois...
P:
Resumindo, o criador não deve pensar na encenação...
Mário Lúcio: Eu como já
tinha o hábito de escrever guiões para documentários e
espectáculos, procurei seguir essa linha, mas foi um
processo de sofrimento. Só depois me apercebi que realmente
essas soluções técnicas cabiam ao encenador, mas eu continuo
a trabalhar assim, a sugerir, porque senão complico a vida
ao encenador e também porque não saberia enquadrar
exactamente o que eu quero. Daí que às vezes propunha
soluções desse tipo, que fazem parte mais do texto do que da
encenação, mas onde certos elementos da encenação entram
como elementos plásticos do texto.
P:
Esse relacionamento com o encenador, para o escritor, é uma
facilidade.
Mário Lúcio:
Exactamente. Para mim constitui uma enorme facilidade porque
eu não gosto de complicar as coisas. Assim sei que o
trabalho vai numa linha e que essa linha permite-me uma
enorme aprendizagem, isto é fundamental, porque é uma
matéria que eu não domino, e também essa minha aprendizagem
vai facilitar posteriormente a encenação da obra. Então é
todo um processo de partilha, onde eu funciono também como
aprendiz.
P:
Tecnicamente falando, a dramaturgia é algo bem diferente do
resto que se possa escrever. Que comentários?
Mário Lúcio: Para mim
foi muito diferente, porque na minha prosa eu não gosto de
escrever diálogos, travessões e parágrafos. Comecei na
literatura pela poesia, que continuo a produzir, depois
escrevi um livro de prosa, que acho que teve algum papel
nesse convite que me fizeram, mas é um texto que não tem
travessões, não tem diálogos sistemáticos, eles estão
narrados, como eu gosto de escrever. E de repente na
dramaturgia temos que estar permanentemente a fazer ponto
parágrafo travessão, ponto parágrafo travessão. Incomoda-me
muito. Não nos permite muitas loucuras, porque as
personagens não habitam dentro de nós no teatro, como
acontece nos outros géneros. No teatro nós temos que ser
actores, isto é, os vários personagens são fingimentos de
mim. E então é possível também entrar em contradições
comigo. Aliás, acho que a dramaturgia é o único espelho
literário que existe e mostra-nos que cada homem é vários
homens. E isso aconteceu-me. Tive que aceitar ser mulher,
mais do que a metade que naturalmente sou, tive que aceitar
ser bruxo, aceitar ser meio homem, que todos nós somos, e
tive que aceitar ser o despistado, o racista, o ditador, o
machista, que são coisas que nos habitam e a escola nos
ensina a camuflar, mas no processo literário como é o
teatro, onde nós temos que ser esses personagens, aí não há
nada a esconder. E então foi esse processo, primeiro em
termos técnicos e estéticos de aceitar permanentemente fazer
cortes para que os personagens pudessem falar, mas também
aceitar que não estava a criar personagens para me servir,
como é o caso da poesia ou da prosa, mas que realmente eu
estava a deitar fora as várias personagens que me habitam. E
isso foi uma grande aprendizagem e tive que aceitar que nós
somos esse aglomerado de coisas, incongruentes, às vezes.
P:
Em “Adão...”, a exclusão era o tema. Sabemos que neste
momento há uma outra experiência em curso...
Mário Lúcio: Sim.
Quando eu me encontrei com o João Branco no Porto, nós
falamos muito, até porque tanto ele como a Ana Cordeiro
gostaram muito do texto. Aliás confesso que quando o enviei,
não fazia ideia de coisa nenhuma que se iria passar, porque
nem eu mesmo gostava do texto, não sabia muito bem o que
tinha escrito, não sabia se iria servir. Mas eles gostaram.
Depois a Isabel Alves Costa do Porto 2001 também gostou e
nas conversas fui explicando porquê é que criei as várias
personagens femininas. E umas das personagens é a
cabeleireira. E sempre considerei que o local mais
democrático do mundo, pelo menos aqui em Cabo Verde, é um
salão de cabeleireiro, onde vão todas as pessoas e todas tem
direito de falar e de especular e de dizer aquilo que
querem. É o sítio onde nada se esconde, diz-se tudo, sabe-se
tudo e aquilo que não se sabe inventa-se, e o mais terrível
é que a invenção acaba por coincidir com algum facto. E o
João disse, olha curiosamente, eu tenho um sonho de fazer
uma peça que se passe dentro de um salão de cabeleireiro...
(risos)
P:
Foi um prelúdio...
Mário Lúcio: Pois, e eu
disse-lhe, então está escrito. Fomos desenvolvendo ideias e
eu deixo as coisas cozinharem até que esse fenómeno que se
chama limite do tempo comece a provocar uma adrenalina e eu
pus-me o compromisso de até Novembro ter pronta uma sinopse,
durante a digressão que fiz entretanto fui tomando notas
para encontrar uma solução estética para o que eu cria
narrar, e apresentei ao João a ideia geral dessa nossa obra
que se chamará “Salon”...
P:
Salon di cabeleireiro...
Mário Lúcio: Exacto e
há esse jogo de palavras que nos faz associar essa palavra
aos salões do Western, porque realmente é um sítio onde
acontece todo o tipo de situações. Já estamos em fase
avançada. Dentro de alguns dias vou começar a escrita
integral do texto.
Entrevista de Fonseca Soares,
publicada no nº9 da Revista Mindelact, em 2002.

Mário Lúcio, desenhado por
Zé Leopardo
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