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«Contos em Viagem - Cabo Verde»
apresentado em Portugal |
Depois de ter sido estreado
no festival Mindelact 2007, o Teatro Meridional apresenta em
temporada na cidade de Lisboa, a peça «Contos em Viagem -
Cabo Verde». O espectáculo, de uma beleza poética, plástica
e criativa a todos os títulos notável, marcou a edição deste
ano do Mindelact, deixando o público com o coração nas mãos,
e que retribuiu essa inesquecível performance com um aplauso
final nunca antes visto no nosso país. Agraciado com o
Prémio Copacabana 2007 pela Associação Mindelact, o Teatro
Meridional continua a mostrar porque é um dos grupos mais
importantes do teatro português. Leia aqui a crítica, que
considera esta peça «um objecto artístico exemplar».
Exemplo Meridional - mais
uma viagem por um mundo alheio
Um texto de João Carneiro

Carla Galvão e Fernando Mota,
em «Contos em Viagem - Cabo Verde»
Foto de César Schofield
Despojamento cénico e trabalho
de interpretação do actor são dois aspectos fundamentais do
trabalho do Teatro Meridional, como consta do pequeno texto
com que a companhia se apresenta no seu «site» da Internet.
São pequenos traços fundamentais dos primeiros espectáculos
da companhia: Ki Fatxiamu noi Kui, Cloun Dei,
Naque, só para citar os mais recuados no tempo, são
espectáculos em que o trabalho dos actores era contrapartida
necessária e inevitável daquele despojamento cénico em que
tudo depende dos actores, do seu corpo, da sua voz, dos seus
movimentos, sendo justamente por aí que se define, de
maneira exemplar e essencial, o que é o espaço teatral.
É ainda este tipo de
articulação entre o espaço cénico e o trabalho do actor que
se vai desenvolver, de maneira tão serena que parece
natural, até uma época recente em que surgem espectáculos
tão importantes como Endgame e Waiting for Godot,
como Para Além do Tejo ou Por Detrás dos Montes,
ou como o recente Contos em Viagem - Cabo Verde.
Estes Contos são já os
segundos de um projecto que começou com textos de autores
brasileiros, em 2006. Como noutros espectáculos, a palavra é
central, ao contrário de Para Além do Tejo ou Por
Detrás dos Montes em que a palavra é subtraída ao
universo teatral. Em qualquer dos espectáculos, porém, a
ideia de viagem está presente na maneira como os criadores
restituem sob a forma teatral as impressões de universos
alheios. Nuns casos, são os lugares que servem de ponto de
partida e de motor das construções dramatúrgicas, noutros,
são os textos que estão presentes, como no caso do Brasil e,
agora, no de Cabo Verde.
Os autores escolhidos incluem
António Aurélio Gonçalves, Baltasar Lopes da Silva, Germano
Almeida, Fátima Bettencourt, Ovídio Martins, entre outros.
As palavras integram uma narrativa feita de fragmentos, por
onde passam episódios, evocações e memórias, num trabalho de
selecção e dramaturgia feito por Natália Luísa.
No espectáculo, contudo, as
palavras são tão importantes como a dimensão plástica, como
a música, como o trabalho dos dois intérpretes. Marta
Carreiras concebeu um cenário feito quase só de desperdícios
- caixotes, baldes de plástico, pedaços de tecido, madeiras,
uma lua ou um mundo de papel. Como nas «combines» de
Rauschenberg, aquilo que acabaria no lixo é reciclado em
obra de arte; as coisas voltam, afinal, depois de
trabalhadas pelos artistas, ao mundo de que fazem parte.
Aí, Carla Galvão, envolvida em
roupas e panos coloridos, fala em crioulo e em português,
dirige-se a Deus virada para os holofotes do teatro, e
mantém com Fernando Mota um diálogo de cortar a respiração,
falando, cantando, dançando. O músico utiliza para a
produção de sons objectos tão insólitos ou tão banais como
pedaços de mangueira, madeira, água, ar, baldes, utensílios
domésticos e triviais, coisas simples e inesperadas, que
acabariam no lixo se não fossem as pessoas que nos chamam a
atenção para elas, que nos ensinam a ver melhor, a sentir
melhor, a pensar melhor.
Contos em Viagem - Cabo
Verde é, justamente, um espectáculo que mostra que as
coisas podem ser sempre melhores; como objecto artístico é
exemplar.

Imagem do Cartaz
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