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O Senhor Luz: entrevista com César Fortes

 

O Mindelact, ao longo destes onze anos, produziu também bons técnicos. Os homens que não dão a cara, mas que fazem o espectáculo acontecer. Um deles é César Fortes. Um jovem que saiu do Mindelo para o teatro Rivoli, na cidade do Porto, em 1998. Hoje, César presta trabalho como iluminador às melhores companhias de teatro de Portugal e faz da luz a sua profissão.

 

Pergunta – Como é que o César surge no mundo do teatro?


César Fortes - Tudo começa no curso de teatro do Centro Cultural Português, no ano de 1995. Mas logo no início me interessei pela área da iluminação.

 

P - Em regra todos os que vão para os cursos do CCP querem ser actores.

 

CF - Eu também. No início queria ser actor. Fiz o curso, fiz vários castings como actor. Mas sentia que a representação não era o meu forte.

 

P - Mesmo assim ainda chegaste a trabalhar como actor num programa de televisão - o "Flagra" - e não te saías nada mal.

 

CF - Mas isso foi um incentivo que naquela época se deu aos actores de teatro de S. Vicente e que nos permitiu, entre outras coisas, ganhar algum dinheiro. E fiz o "Flagra", junto com o Edson Fortes, com muito gosto. Mas já fazia iluminação, também na televisão. A passagem por um programa de televisão deu-me visibilidade, passei a ser conhecido...

 

P - Mas decididamente, o César não iria ser actor, para confirmar a excepção que toda a regra tem.

 

CF - Não! Não estava virado para ser actor. O "bichinho" da iluminação já me roía desde o curso de teatro. E depois, o contacto através do Mindelact com companhias internacionais, mostrou-me que o caminho era a iluminação. E esse contacto foi importante, porque no Mindelact passam grandes companhias de teatro, com gente experiente, com quem se aprende muito. Foi uma aprendizagem constante e fiz questão de "sugar" toda a informação dos técnicos de iluminação que passaram pelo Mindelact.

 

P - Por isso, o salto para o estrangeiro era evidente?

 

CF - É verdade. Senti que havia muito para aprender. E em 1999 dou um grande salto na minha carreira, quando vou para o teatro Rivoli, na cidade do Porto, considerado um dos melhores de Portugal. A primeira vez que entrei no Rivoli, ainda como estagiário, e fui afinar luzes, os técnicos do teatro não queriam acreditar que eu estava a estagiar, mas era um técnico que tinha vindo de Cabo Verde para ir trabalhar com eles. E como deves imaginar isso é gratificante para um jovem que sai dos palcos de Cabo Verde. E é também um reconhecimento daquilo que aprendi no Mindelact.

 

P - E o nosso César é hoje um profissional de iluminação muito solicitado...

 

CF - Sou um profissional de iluminação porque vivo exclusivamente dessa profissão e tenho o privilégio de ser referenciado por companhias de teatro e por grandes directores. Um deles é o Miguel Seabra, considerado um dos melhores encenadores de Portugal. Uma outra grande referência é a Companhia Dos à Deux, considerada uma das melhores do mundo. Sempre que solicitam os meus serviços, sou técnico deles.

 

P - Hoje, a tua vida é a luz.

 

CF - É. A minha vida é a luz. Na maioria dos dias é das nove da manhã até à meia noite.

 

P - O leigo tem a ideia de que fazer iluminação de espectáculos de teatro é pouco mais que acender e apagar lâmpadas...

 

CF - Na verdade, as pessoas têm essa ideia de que a iluminação é pendurar projectores e acender botões. Mas não! Há toda uma sensibilidade que vem da pessoa na escolha das cores, na tonalidade da luz. Iluminar não é mostrar que está iluminado, é ajudar a contar o espectáculo. Só no fim é que as pessoas dizem se a iluminação era boa ou má. A ideia não é fazer espectáculos de luz, mas sim é fazer com que a luz ajude a contar a história. Tem que haver uma sincronia entre a luz e o que se está a passar no palco. Por exemplo, fazer um desenho de luz implica estar-se a par do espectáculo: dos figurinos, da cenografia, dos sons, tudo o que vai passar pelo palco e sobretudo muita conversa com o encenador. Só com isso se consegue chegar a um bom desenho de luz.

 

P - Apesar do sucesso que estás a alcançar na tua carreira, continuas a vir ao Mindelact. Saudades?

 

CF - Para mim é um prazer enorme. O Mindelact é a casa onde aprendi a minha profissão. E todos os anos marco as minhas férias na altura em que se realiza o festival. E faço isso com o melhor gosto, pois o Mindelact é um dos melhores festivais que se faz em África.

 

P - Ter saído de Cabo Verde, do nosso único teatro, e fazer iluminação em grandes salas e com companhias de prestígio é estimulante e prova que se podem abrir portas que, parecem nunca estar abertas...

 

CF - É sim. É reconfortante. É muito bom sentir que o trabalho que faço é reconhecido, numa área onde os cabo-verdianos não penetram facilmente.

 

P - Mas é uma prova de que o teatro em S. Vicente também tem produzido técnicos. O pessoal que não se vê, mas que faz o espectáculo acontecer.

 

CF - Temos grandes técnicos. Não é apenas o César Fortes. Temos o Edson, o Carlos, o Anselmo. São bons técnicos. Eu estou num outro patamar, mas a forma de trabalhar é igual. E repara, quando grandes companhias vem ao Mindelact, no fim sempre agradecem publicamente à equipa técnica, é um reconhecimento pelo trabalho executado. Quando isso vem de companhias como a Dos à Deux, é estimulante para todos nós. Isso para dizer que a equipa de iluminação que trabalha no Mindelact é de grande qualidade. Não foi apenas o César Fortes que o festival produziu.

 

P - Os técnicos, mesmo depois do trabalho, continuam no anonimato. Deves ser o primeiro técnico de iluminação cabo-verdiano que dá uma grande entrevista para um jornal. O público não presta atenção ao vosso trabalho?

 

CF - As pessoas quando vem ao teatro apenas vem os actores que estão no palco e não tem a noção da equipa que está por trás. Quando o espectáculo começa os actores tem, claramente, a maior responsabilidade. Mas é a equipa técnica que começa a ajudar a contar a história. Qualquer falha nossa, o espectáculo empaca. É por isso que, no final dos espectáculos, quando as coisas correm bem, os directores das companhias agradecem publicamente à equipa técnica.

 

P - Eles sabem o que estão a fazer?

 

CF - Eles sabem que o trabalho realizado pela equipa técnica é muito duro. Eles sabem que estamos lá exclusivamente para ajudá-los.

 

 

Entrevista conduzida por Eduíno Santos

Publicada no jornal Expresso das Ilhas, nº198, 21 de Setembro de 2005

 


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