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| Entrevista
com Espírito Santo da Silva |
É
um dos dramaturgos em destaque no panorama actual do teatro
cabo-verdiano. Com uma colectânea de três peças editadas
fala de si, da
sua visão do teatro e da dramaturgia nacional.
Entrevista conduzida por Teresa Sofia Fortes
In
semana online: www.asemana.cv
A
colectânea de dramaturgia, que traz três peças suas - Um
estranho à minha mesa, Retalhos de Vida e Visões Apocalípticas
-, é um projecto seu, há muito almejado, ou foi-lhe
sugerido pela Associação Mindelact?
É
uma história longa que vou tentar resumir. Uma vez quis
participar no Prémio Sonangol de Literatura, pois tinha
algum material pronto, que não é esse que foi inserido na
colectânea. Mas disseram-me que só podiam participar
autores com obra publicada. Nessa ocasião, tive uma
conversa com João Branco sobre este assunto, mas não me
passa pela cabeça a possibilidade de publicação. Mas isso
tornou-se-lhe sugestivo e, então, propôs-me que eu
refizesse os quatro textos que eu tinha apresentado nos
festivais de Mindelact, a começar por Um Estranho à minha
mesa, que eu tinha apresentado no primeiro festival
Mindelact, em 1995.
Bem,
a verdade é que eu estava mais entusiasmado com a
possibilidade de publicar os textos meus que ainda não eram
conhecidos. Mas pensei melhor na proposta do João Branco,
achei-a engraçada e resolvi aceitar porque, de facto, a ausência
de dramaturgia publicada é o grande calcanhar de Aquiles do
teatro cabo-verdiano. Daí, comecei a refazer os textos
porque ainda eram quase simplesmente guiões de encenação.
E só por isso, por sugestão mútua (minha e do João
Branco), sou o primeiro dramaturgo cujas obras são
publicadas nesta colectânea. São peças que não são
desconhecidas do público, pois já foram encenadas, com as
insuficiências dramatúrgicas que tinha nessa altura porque
ainda não dominava a questão de estrutura das peças. Eram
trabalhos experimentais.
Foi
propositada a selecção desses três textos para a colectânea?
Certamente tem mais peças.
Sim,
tenho mais de uma dezena de peças já escritas, algumas inéditas
e outras já encenadas por grupos de S. Vicente,
nomeadamente o Grupo Frank Cavaquim. Na verdade, porque as
peças foram apresentadas nos festivais Mindelact, sendo que
uma delas teve notas positivas da própria Associação
Mindelact e foi alvo de um reparo extraordinário do meu
amigo Emanuel Ribeiro. O último texto, de 1998, “Retalhos
de Vida”, teve notas extremamente positivas do Professor
Doutor João Varela. De modo que a escolha destes textos não
foi bem aleatório.
De
que género são essas peças?
Bem,
“Um Estranho à minha mesa” é mais um drama de intervenção
social, que entremeia alguma comédia, embora eu não seja
muito virado para esse género. Não tenho nada contra, mas
não sou muito afecto ao teatro lúdico. Para mim o teatro
deve absorver as preocupações da vida e, principalmente,
tudo o que tem a ver com problemas sociais. Essa peça é um
pouco do retrato do indivíduo na sociedade e,
fundamentalmente, gosto de brincar com isso, é a obra dos
mendigos: à porta de uma igreja qualquer estão sentadas
pessoas na sua fragilidade social e económica, ou seja, são
uns pedintes. Só que, em cena, transformo-os em virtuosos.
Outrossim, “Retalhos de Vida” é uma mistura declarada
de géneros, porque tem tudo o que o teatro poderá ter:
tragédia, comédia e drama, sendo que eu prefiro a baixa
comédia.
Mas,
como já disse prefiro um teatro que levanta problemas,
talvez para indicar caminhos, não sei, isso é papel dos
analistas. É um texto com monólogo, diálogo, réplica, tréplica...
Quanto ao quarto texto, de 1997 - “Corcundas”-,
infelizmente, não foi possível incluí-lo na colectânea
por ser muito grande. Trata-se de um texto em que Cabo Verde
está lá plasmado, ou seja, há uma forte ligação à mamãe
terra. Quanto ao “Visões Apocalípticas” conta o sonho
de um octagenário, que é levado nas asas de Morfeu. É um
teatro onírico em que procuro fazer um trabalho psicanalítico,
pois não só sou brechtiano como também freudiano.
A
novidade é que os textos não estão estruturados nem na
regra clássica (que tem a ver com o teatro grego, até1600/1700,
em que a peça era dividida em cinco actos) nem na regra
moderna (de três actos, de 1700 para cá). Optei por
quadros, mas fi-lo inconscientemente.
Gostaria
de ver essas peças reencenadas?
Naturalmente.
Os textos mantêm a essência de quando foram estreados, na
segunda metade da década de 1990 no festival Mindelact, mas
sofreram melhorias no que tange a técnicas e conhecimentos
de dramaturgia.
A
colectânea é para para quem?
Parto
do princípio de que a colectânea é para um público
vasto. E espero que a partir desta edição a dramaturgia
finque bem os pés no chão deste país porque a intenção
desta colectânea é criar uma nacionalidade à dramaturgia.
A ficção, a poesia já têm cidadania, mas a dramaturgia
ainda não; com esta iniciativa da Mindelact, que tem o
patrocínio do Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro,
e o concurso de dramaturgia da Associação de Escritores de
Cabo Verde acredito que a dramaturgia nacional conquistará
o seu lugar
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