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«Ilha Ancorada» estreia dia 30 de Junho, lembrando Claridade 

 

Costumam ser um dos momentos mais aguardados da temporada teatral de São Vicente. As peças dos Cursos de Iniciação Teatral do CCP/ICA são sempre geradoras de grande expectativa, não só para ver ao vivo a nova fornalha de actores, como também pelas peças em si, habitualmente inovadoras e surpreendentes. Cada ano, um tema. Desta feita, a temática aborda a revista «Claridade». A não perder.

 

“É preciso fincar os pés na terra.” Manuel Lopes

O sentimento que desde há muito fez parte do homem cabo-verdiano foi o de ter uma vida melhor em busca de novos destinos, a procura do seu pão-nosso de cada dia.


Mas essa busca de soluções para os seus problemas além fronteira, acarreta consigo difíceis circunstâncias que o faz pensar e repensar se realmente esse é o melhor caminho a seguir. E esta peça focaliza essencialmente esse dilema, esse dualismo a que se submete o cabo-verdiano perante uma dura realidade vivida aqui nessa terra de morabeza, serenata e amdjer, colocando-o entre o querer ficar e ter que partir.

Maninho, o protagonista desta peça, viverá essa mesma situação, e terá que tomar a difícil decisão de partir ou ficar. Mas Maninho não vai deixar-se levar pela vontade do seu pai, que é de ver o seu filho trabalhar de “riba” de água de mar juntamente com ele. Apesar de muito confuso com esta situação, optará por ficar e lutar na “rotcha” firme. Porque ” ilha ka ta balançá, a ilha ka ta encalhá e nem ilha ta ba pa fund”.


Regressara a casa, para rever o seu grande amor. Abraçá-la como fazia antes, brincar no seu corpo pequenino e ágil, sentir o seu calor de carvão rijo. Sim para ter a certeza que estava regressando a casa deveras, para sentir entre os braços o lume de uma vida que voltava a acender. A alegria do viver tranquilo de família, melhor que a aventura do mar e a insegurança de destinos desconhecidos.

À volta disto se vai desenrolar toda uma história de sonhos, de grandes decisões, de amor, e de muitas dúvidas, tendo como entidade patronal o mais importante movimento literário de Cabo Verde, traduzida numa revista: Claridade.

A revista Claridade é tida como uma afirmação de emancipação cultural, social e politica da sociedade cabo-verdiana. O contributo dos escritores da Claridade foi importante para um novo modo de expressão, com base no entendimento das raízes do homem cabo-verdiano, da sua personalidade, construída a partir de elementos étnicos e na captação do modo de agir e sentir do homem inserido no seu espaço.

Foram convidados para esta peça as delirantes Virgens Loucas, de autoria de António Aurélio Gonçalves, o Chico Zepa, que não embarcou por causa das paródias, proveniente do romance Chiquinho, de Baltasar Lopes, o Zé Viola, do romance Chuva Braba, para contracenarem com alguns dos personagens, entre dos quais o protagonista Maninho, do conto Jamaica Zarpou, de Manuel Lopes, com algumas passagens, bem marcantes e trazendo com elas todo um sentimento de ódio, intolerância e imposição e divergências, retiradas do romance Chuva Braba desse mesmo autor, constituindo assim um ponto de encontro entre esses diferentes personagens criadas pelos que são considerados os impulsionadores de uma era de escritores das ilhas sem igual.

O resultado que se obteve a partir desse ponto de encontro é o que chamamos hoje de Ilha Ancorada, uma nova versão desses textos que foram adaptados e rescritos por João Branco e a Eillen Barbosa, contando com a ajuda dos outros demais membros dessa família do psicoteatro. Agora já na recta final anseia-se pelo grande dia, que é já na próxima sexta feira, onde 13 pequenas e grandes estrelas brilharão no palco pela primeira vez, acompanhadas por uma excelente equipa técnica.

 

Texto de Sandra Fonseca

 

 

Cartaz de "Ilha Ancorada"

design de Neu Lopes

 

 

 


mindelact@hotmail.com