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João Branco em entrevista: «lutaremos sempre»

 

O Mindelact 2006 abre as portas dentro de dois dias. O que é considerado o melhor evento teatral do continente africano deu-nos o mote para a conversa com o director da Associação Mindelact, João Branco. A crise financeira por que passa o Festival e as vias da sua sustentabilidade foram os dois principais eixos da entrevista, publicada no semanário Expresso das Ilhas

 

 

 

Dentro de duas semanas a Associação Mindelact abre as portas para o 12º Festival Internacional de Teatro do Mindelo. Antes do mais, que surpresas artísticas iremos ter? 

 

João Branco – Nós temos a preocupação de que a programação tenha uma qualidade artística que lhe garanta a plena satisfação do público e que as propostas técnicas preferidas para a programação primem não só pela qualidade artística como também pela diversidade. Isto quer dizer que queremos fazer de cada apresentação uma surpresa. Obviamente que a mim como programador ficar-me-ia mal  estar a destacar um ou outro espectáculo por alguma característica peculiar que ele poderia ter, mas eu penso que da forma como a programação está sendo feita acredito que todos os espectáculos vão trazer coisas boas e vão trazer a plena satisfação de quem que de alguma forma teve o prazer de ir ver o teatro.

 

Então destaco eu a peça que sobe ao palco logo no segundo dia do festival "Ratos e Homens" da companhia portuguesa “Teatro Art'Imagem”.

 

JB – “ Homens e Ratos”  é uma produção de um grupo de teatro português já com muitos anos de experiência e têm como uma peculiaridade importante o facto de um dos actores do elenco ser cabo-verdiano, o João Paulo Brito que vive neste momento na cidade da Praia e que tem uma interpretação muitíssimo boa nesse espectáculo. Nós quisemos programá-lo pela sua qualidade e pelo facto de nele participar um actor cabo-verdiano que tem uma performance que eu diria acima da média.

 

Sendo encenador e director artístico do Grupo de Teatro do CCP do Mindelo, podia dizer-nos o que vai o seu grupo trazer ao público?

 

JB – Estamos a preparar uma adaptação livre do livro do Germano Almeida “ No Mar da Lajinha”. É um livro, como quase todos os outros do escritor em questão, muito complicado em adaptar, porque a escrita do Germano é tudo menos linear. Nós escolhemos quatro personagens femininos à volta dos quais desenvolvemos toda trama da peça. A peça chama-se “ Mulheres na Lajinha”: basicamente são quatro mulheres que se encontram na praia da Lajinha. Fazem a sua ginástica na Lajinha e tomam os seus banhos como é de tradição aqui no Mindelo há muitos anos e que conversam, entre muitas outras coisas, sobre sexo e homens.  Acho que é uma peça que de certa forma vem bastante apimentada e que vai ser do agrado das pessoas e espero que ninguém se ofenda. São coisas que os mindelenses falam, muitas vezes de surdina, às vezes de boca cheia. É acima de tudo uma peça divertida.

 

Estando agora a transmissão televisiva dos festivais no centro das atenções, pergunto-lhe: vai haver transmissão ou pelo menos gravação das peças em cartaz?

 

JB – Nós temos a preocupação de fazer o registo geral do festival. É mais no estilo de documentário onde fiquem registados os excertos dos espectáculos, as opiniões das pessoas, as filmagens das actividades paralelas, etc. Até porque, na minha opinião, o teatro é para fazer no teatro, não é para fazer na televisão. A não ser que haja necessidade de fazer para arquivo, nomeadamente das peças cabo-verdianas, o seu registo integral, mas nunca para sua transmissão ou comercialização. Não posso deixar de referir que nós temos hoje em Cabo Verde um Centro de Documentação e Investigação Teatral onde faz todo o sentido que se promova o registo digital das peças de teatro que vão sendo apresentadas no festival, principalmente daquelas apresentadas pelos grupos de Cabo Verde.

 

Lê-se no site da sua Associação que o Mindelact-2006 vai ser um festival em reflexão. Porquê ?

 

JB – Porque chegou o momento de nós todos juntos, portanto as pessoas que têm abraçado este festival, as empresas e instituições nacionais mais directamente ligadas com o apoio às actividades culturais e os próprios promotores do evento, de nos sentarmos e pensarmos o quê que este festival trouxe no passado, o que ele está a trazer e o que poderá trazer no futuro; porque a verdade é que continuamos a ter algumas dificuldades em atingir um dos objectivos da nossa acção que é (utilizando uma palavra que tem sido muito usada pelo nosso Ministro da Cultura) a procura da sustentabilidade do festival. Essa sustentabilidade consegue através de parcerias sólidas com o mecenato, com instituições nacionais e estrangeiras e nós ainda estamos longe de conseguir esse objectivo. Continuamos batalhando e sem querer desvalorizar todo o apoio que temos tido das mais diversas instituições, devemos reflectir sobre aquilo que o festival tem trazido de bom e se vale a pena continuar a apostar nele.

 

O editorial do site da Mindelact tem um travo apocalíptico. É assim tão incerto o futuro do Festival Internacional do Teatro do Mindelo?

 

JB – O facto é que se nós não tivermos a capacidade e a competência mesmo de angariar os fundos necessários para fazer o festival, eu não espero fazer; porque as coisas não se fazem a partir  do nada. Um festival como este, considerado o ano passado o melhor evento teatral do continente africano por alguns órgãos da Comunicação Social, será com certeza o melhor da chamada África Lusófona e será com certeza também um dos melhores da região ocidental africana. Então, para conseguirmos aguentar um festival como este é preciso dinheiro. Se nós não tivermos a capacidade de “ vender o produto” para as entidades que nos podem apoiar, a única possibilidade que nós temos é fechar as portas e deixar de fazer o festival. Não é que isto vá acontecer em curto ou médio prazo. Aquilo que estou a dizer e a mensagem que estamos tentar transmitir é que se calhar chegou o momento de reflectirmos todos juntos se o festival deve continuar a existir ou não. Não é nenhuma mensagem apocalíptica, é simplesmente uma apreciação da nossa situação actual. Acho que é realista, neste momento a situação da Associação difícil, muito complicada, não temos que estar a esconder isto, mas continuamos a lutar com todas as nossas forças.

 

Temos a informação de que o Festival de Teatro do Mindelo passa por grandes dificuldades. Perguntamos: como é que um festival com o prestigio nacional e internacional que granjeou ao longo de doze anos e considerado o maior encontro de teatro do continente africano encontra-se no meio de penúria financeira?

 

JB – Não sei, é complicado estar a responder a esta pergunta. Tivemos já momentos desses no passado, em que as dificuldades eram maiores. Nós acreditamos que estamos a fazer um produto de qualidade, acreditamos também que a relação custo-benefício deste festival é muitíssimo alta. Quer dizer, o dinheiro que o Estado de Cabo Verde sob todas as formas – quer através das Câmaras Municipais, do próprio Estado ou até através de empresas estatais que apoiam este festival – investe no festival é muitíssimo pouco. Este festival é quase todo financiado pela cooperação internacional e pelos próprios grupos que nos visitam. No fundo cada grupo de teatro presente no Mindelact produz a sua própria participação no evento. Por isso é que eu digo que este festival é acima de tudo um festival de afectos e um festival de irmandades. Agora há sempre um nível mínimo de condições financeiras que é preciso dar resposta para se conseguir fazer um evento como este. Este festival já é considerado um milagre e a palavra milagre já pressupõe que se consegue fazer muito com muito pouco. Mas nós gostaríamos de ter a possibilidade de alcançar uma estabilidade financeira que hoje ainda não temos. Isto, mais uma vez sublinhando a importância muito grande de todas as entidades e empresas que nos têm apoiado e que nos vão continuar a apoiar o nosso festival deste ano.    

 

António Monteiro

 

Entrevista publicada no jornal Expresso das Ilhas, de 23 de Agosto de 2006.

 

 

 

 


mindelact@hotmail.com