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Entrevista com Beti Gonçalves, actriz e encenadora do TIM

 

Elisabete Gonçalves - Beti para os amigos, 32 anos, é um camaleão do teatro que se faz em São Vicente. Actriz de mais de 30 peças, monitora de iniciação teatral, animadora cultural e artista plástica, ela é também encenadora, figurinista, maquilhadora, criadora de marionetas e uma das fundadoras do único grupo de teatro infantil de Cabo Verde - o TIM. Enfim, uma artista de corpo e alma. Entrevista de Teresa Sofia Fortes.

 

 

   

Beti, como entraste para o mundo do teatro?
Tudo começou quando conheci o João Branco, em 1995. Em criança, com cerca 10 ou 11 anos, já gostava de fazer teatro e também de cantar e dançar na minha escola. Entretanto, com o passar dos anos, deixei o teatro de lado. Quando conheci o João, então, naquele clima de tchutcheza (risos) ele convidou-me para jantar, não aceitei, e ele resolveu convidar-me para ir ver uma peça de teatro, que se chamava “Lágrimas”. E, assim, desde então gosto de fazer teatro.

 

Iniciaste pelo curso de iniciação teatral do Centro Cultural Português do Mindelo como acontece com tantos outros actores, ou não?
Não. Aconteceu uma vez que o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo-Instituto Camões estava com falta de um actor para uma peça que estavam a encenar, porque um dos elementos do grupo teve que sair para o estrangeiro a fim de estudar, e chamaram-me a substituí-lo. Depois disso é que fiz o curso de iniciação teatral e outras formações. E, como tenho jeito para as artes plásticas, aliás na Escola Técnica fiz curso de artes e ofícios, área de artes gráficas, comecei também a trabalhar na parte do cenário e, mais tarde, dos figurinos das peças do GTCCPM-ICA. Desenhava as roupas e depois passava os desenhos para a costureira.

 

E do que é que gostas mais: cenografia, desenho de figurinos ou interpretação? Sem dúvida, a interpretação. E agora estou a experimentar a encenação. Mas prefiro a interpretação, acima de tudo. O teatro é como uma doença crónica, um vício, quando experimentamos nunca mais queremos parar, toma conta completamente da nossa vida.

 

Onde está a maravilha, na possibilidade de interpretar a cada peça personagens diferentes uma das outras e de ti própria?
Sim, quanto mais difícil é a personagem mais desafiante é para mim como actriz. Na verdade, qualquer personagem tem que ser vivido com a mesma entrega, disponibilidade e intensidade. Mas quando é completamente diferente de mim, maior é o desafio e mais aprendo com essa personagem.

 

E qual foi até agora, dos cerca de 30 personagens diferentes que já interpretaste, o mais desafiante?
Foi “Cloun Creolus Dei”. O cloun é, aliás, um dos mais difíceis tipos de personagens que existe. Pode-se pensar que é um palhaço e que, por isso, é simples de interpretar. Mas, não, é difícil porque o cloun é como uma criança, simples, ingénua... Para um adulto conseguir interpretar bem um cloun tem de se tornar uma criança, deixar as suas ideias de adulto de lado, e olhar o mundo com olhos de criança.

 

E, além de interpretação e construção de cenários, também agora estás a experimentar a encenação? 

Sim, desde que criamos o grupo Teatro Infantil do Mindelo (TIM) tenho estado a trabalhar na encenação também, com a colaboração dos outros elementos do grupo, pois também sou actriz e criadora dos cenários e figurinos, e não tenho tempo para me dedicar somente a isso. Mas, a verdade, é que estou cada vez mais interessada pela encenação. Quando vou ver as peças dos outros grupos começo logo a imaginar como faria as coisas no lugar do encenador, desde o cenário ao jogo de luzes... Enfim, tudo o que envolve a encenação.

 

Como nasceu a ideia de criar o grupo TIM?
Alguns de nós já trabalhavam com o grupo de marionetas do Centro Cultural Português do Mindelo, que, de quando em vez, fazia algumas peças para crianças. Mas, não havia teatro, feito por actores de carne e osso, para crianças aqui em São Vicente. Por isso, criamos o TIM, em 2003, e desde então, temos observado que é cada vez maior o número de crianças que não só vêm ao CCM ver peças de teatro infantis como as outras. E elas trazem os pais. Mais do que isso, querem também fazer teatro. Isso é muito bom e incentiva-nos a continuar a trabalhar.

 

E actuar para crianças é ainda mais difícil do que interpretar um personagem cloun?
Sim, é mais difícil. Sendo o público infantil, temos que tomar certos cuidados. Quando actuamos para adultos podemos dizer o que queremos e como queremos e deixar a interpretação por conta deles. Quando o público é constituído por crianças temos que estar mais atentos porque eles são mais espertos (risos), não dá para enganá-los, eles não deixam passar nada. Por exemplo, numa das peças que fizemos, a uma dada altura, um personagem, que antes falava português, começou a falar em crioulo. E, uma das crianças da audiência, pergunta “Adé, bo ta falá criol o português?”. Eles captam tudo! Entretanto, é necessário cativar a sua atenção, de modo a que eles não se distraiam com mais nada e fiquem atentos até o fim da peça. Algo que é difícil de conseguir.

 

Tenho reparado que as peças que o TIM faz não tem apenas um cariz lúdico, ou seja, não são apenas para divertir as pessoas, mas também têm objectivos educacional, quer dizer, sempre procuram ensinar alguma coisa às crianças.
Sim, estamos a fazer um teatro a favor da educação. Já encenámos peças sobre os cuidados a ter com o meio ambiente, o amor que se deve ter aos livros, dentre outros temas ligados à nossa educação como cidadãos responsáveis. Essa opção tem a ver também com o facto de ser mais fácil conseguir apoios e patrocínios para este tipo de peças. Temos recebido apoio da Câmara Municipal de São Vicente, por exemplo. É o melhor que podemos fazer: despertar o interesse das crianças pelas artes cénicas e, ao mesmo tempo, contribuir para a sua educação enquanto cidadãos responsáveis.

 

Disseste que as crianças não só gostam mais agora de teatro como também querem fazer teatro. Mas não existem cursos de teatro para crianças aqui em São Vicente e nem em qualquer outra parte do país ....
Nós do TIM só precisamos de um espaço para poder dar um curso de iniciação teatral para crianças. Solicitamos uma das salas do CCM, mas disseram-nos que, neste momento, não é possível. Entretanto, se conseguirmos um espaço daremos início ao projecto.

 

Muitos artistas plásticos, e não só, queixam-se da falta de meios para desenvolver o seu trabalho. E, de facto, o nosso país, não oferece ainda bons meios de trabalho nessa e outras áreas artísticas. Como é que tu lidas com essa falta de meios?
Procuro reciclar o maior número possível de materiais. Procuro sempre ser criativa, inventar materiais. Quando andava na escola, se não tivesse uma régua, arranjava um pedaço de madeira e transformava-o em régua. Os meus colegas olhavam-me boquiabertos e diziam-me: “És uma descarada!”. Sou, assim, sempre encontro uma solução.

 

Mas, talvez por seres assim, é que foste bem sucedida, no trabalho que fizeste com as crianças do Centro de Acolhimento Operação Carinho.
Dirigi um atelier de expressão dramática e construção de máscaras teatrais para essas crianças, a convite da Câmara Municipal de São Vicente, no ano passado. Foi o trabalho mais emocionante que já fiz. Nunca tinha trabalhado com crianças como aquelas, que enfrentam difíceis situações sociais. Não foi fácil, mas com esse jeito de ser que Deus me deu, conseguimos fazer um bom trabalho, ir até ao fim (coisa que, segundo o Pastor Daniel Monteiro, que dirige a Operação Carinho, nunca antes tinha acontecido com qualquer outro monitor) e ficamos amigos. Onde quer que me vejam, chamam-me, abraçam-se, é uma alegria. E vê-los em cima do palco a interpretar aquela peça de teatro, após aqueles dias de formação, foi o dia mais lindo.

 

Bem, revelas-te uma artista multi-facetada. O que pensar fazer ainda, dentro da área do teatro e não só?
Quero pintar. Na Escola Técnica eu era uma das melhores alunas de Artes Gráficas. Aliás, sonhava fazer um curso de Belas Artes.

 

Mas ainda podes tentar, ou não?
Quem sabe. Pinto alguns quadros, até já cheguei a expor aqui no CCM numa amostra colectiva junto com outras mulheres cabo-verdianas.

 

E quando é que te aventuras a fazer uma exposição individual?
Não sei. Acho que não o fiz ainda porque tenho medo. Tenho alguns trabalhos, quando um dia me encher de coragem... Entretanto, vou pintando e oferecendo os quadros aos meus amigos quando eles fazem anos.

 

 

 

 

Por Teresa Sofia Fortes

www.asemana.cv

 

 

 


mindelact@hotmail.com