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| Festival
Mindelact 2006: a memória descritiva de Micaela Barbosa
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Mais
um festival Mindelact. De 08 a 17 de Setembro realizou-se na
cidade do Mindelo a festa do teatro. Este ano o festival
começou logo com a amputação dos recursos financeiros,
mas que apesar de tudo não acinzentou esta festa, devido ao
espírito da equipa de produção, que teimosamente se esforça
por gerir este acontecimento sem se deixar cair no desânimo.
Vem provar que já nada fará demolir este festival, já é
um acontecimento que faz parte da vida dos cabo-verdianos.
Como
um ritual, em Setembro no Mindelo respirou-se teatro.
Durante dez dias a cidade agitou-se e todas as energias
confluíram no Centro Cultural do Mindelo.
Dividido
por três espaços e quatro tempos: Auditório, Pátio e Rua;
17h, 21h, 21.30h e 23.30h, a Teatrolândia, a Animação, a
Programação Principal e o Off preencheram as expectativas
do público mindelense habituado a este formato.
A
abrir o festival, e depois da agitação das formalidades de
abertura dos palcos, o público apreciou a tão esperada “Um
vez Soncente era Sábe», musical sobre o Mindelo do início
do século XX. Importante ressalvar aqui o facto simbólico
de neste espectáculo terem participado elementos de vários
grupos de teatro de São Vicente, o que por si demonstra o
forte espírito de grupo que se vive no festival. Uma
abertura que provocou rasgos de sorrisos, mas que ficou um
pouco aquém da expectativa, uma vez que apesar das
potencialidades cénicas desta peça, os problemas de ordem
técnica pesaram um pouco na fruição do mesmo. Mas fez-se
eco o “Wellcome to cidade d’Mindelo” (música integrante do espectáculo)
e não podia ter sido melhor escolhida a peça de abertura
desta festa de teatro.
No
segundo dia, o Teatro Art’Imagem apresentou Ratos
e Homens de Steinbeck, um dos momentos altos do
festival, que cortou fôlegos na plateia e apresentou a
simplicidade do drama humano. Pouco habituado a este “soco
na barriga”, o público do festival ficou quedo e em silêncio,
ora por cumplicidade com a cena, ora por não haver outra opção
de reacção. Muito mérito para estes actores, mas de
sublinhar o forte abraço sentido ao actor cabo-verdiano João
Paulo Brito, agente teatral desta nação. Logo de seguida e
na mesma noite o público teve oportunidade de quebrar este
silêncio sentido, com o Enano, jovem clown que fez explodir
gargalhadas no pátio e que foi uma das presenças mais
marcantes deste festival, enchendo de alegria os espaços
por onde passava. Este clown, vindo de Espanha, levou a sua
alegria até S. Pedro e Calhau (duas pequenas aldeias na
ilha de S. Vicente), levou com ele de praça em praça uma
multidão de gente, e rasgava em cada canto um sorriso. Se
se tivesse que eleger um agente teatral que carregasse a
bandeira com o verdadeiro espírito de festival, com certeza
seria eleito Enano, por unanimidade.
E
este espírito foi vivido em pleno no quarto dia do
festival. Completamente off off, os grupos se cruzaram no
bar do festival e entre palavras e músicas sente-se um
verdadeiro ritual orgiásticas de partilha de mundos e
experiências. Por volta da meia-noite no Centro Cultural do
Mindelo, cantou-se o fado, a morna, o flamengo andaluz e
palavras cruzadas de outros mundos, num perfeito improviso
de festa e assim se sentiu a verdadeira consciência de
festival, de mundos que se cruzam, não só mundo teatrais
mas experiências pessoais ricas de emoção e risos. E o
brilho desta noite teve eco nos dias seguintes, ecos de
felicidade, de cumplicidade. Pois, como mesmo salienta o seu
director, este festival é batalha ganha, mais que não
seja, pelo sentido de partilha, de amizade e criatividade
vivido entre os grupos participantes. Foi neste mesmo dia
que foi apresentada a tão esperada produção da casa, ou
seja, a peça do Grupo do Centro Cultural Português do
Mindelo, Mulheres na
Lajinha. No seguimento do historial da comédia nesta
cidade a peça foi muito bem recebida e grande parte da
plateia se identificou com as palavras das quatro mulheres
na Lajinha. Apesar de não ter surpreendido, ser uma encenação
simples sem grande novidade, a peça divertiu e mostrou como
o riso é ainda o ponto forte do teatro que se espera neste
festival. O público vai fundamentalmente para se divertir e
esta peça cumpriu esse desejo.
Vindo
de Portugal, tivemos a novidade do Staticman,
que seduziu na totalidade os espectadores do Mindelact. Com
performance antes do espectáculo da sala principal, o
homem-estátua presenteou-nos com algumas das suas criações
de imobilidade.
A
programação infantil, a Teatrolândia, foi duma qualidade
exemplar, e o público jovem pode ver espectáculos de
grande qualidade, onde encontramos encenações maduras e
exigentes. De salientar a beleza dos figurinos em todos os
espectáculos. Ficamos com a certeza que os espectáculos
para a infância se encontram num bom nível em Cabo Verde,
uma vez que todas estas produções foram realizadas por
grupos cabo-verdianos. O mesmo já não se poderá falar das
peças apresentadas no Off, que de uma forma geral mostraram
fragilidades ao nível da encenação, da interpretação,
mas que duma forma interessante atingiram outros objectivos.
O grupo de Sto Antão apresentou um pequeno projecto de
clown com jovens adolescentes. Sal e S. Nicolau trouxeram a
sua forma simples e sincera de improvisação sobre temas
corriqueiros e assim partilharam um pouco das suas vivências
e beberam esta experiência de festival de teatro. Com excepção
ao nível de qualidade cénica tivemos a peça Mangatchada,
trabalho final do XI Curso de Teatro CCP/ICA.
Dentro
da programação principal, para além de Ratos
e Homens de Portugal, tivemos um grupo das Canárias, Teatro del Encanto, que apresentaram a peça O Jardim Prometido construída à volta da mulher, o universo onírico
da mulher cabo-verdiana, onde entre alguma confusão linguística
e beleza de acção o público ficou convencido. Mas de
sublinhar a fantástica peça Rostos
de Loanda e Luanda do grupo angolano Miragens Teatro,
com uma qualidade surpreendente. Com uma energia contagiante
este espectáculo prestou a devida homenagem às gentes do
passado de Luanda e conseguiu transportar até Cabo Verde a
musicalidade e corporalidade do teatro angolano. O público
foi ainda brindado com o contador de histórias vindo da
Galiza, Quico Cadaval, que acompanhado pelo músico Fran
Perez partilhou três histórias fantásticas e por momentos
sentiu-se que a sala de 250 lugares se tinha transformado
num pequeno aconchego de «Era uma vez…». Fabuloso!
Repetido informalmente uns dias depois no pátio, mostrou
que este festival é também construído momento a momento,
faz-se ao sabor das energias que flúem e partilhas que se
criam. Um só actor em palco foi repetido dias depois com o
show do actor luso-brasileiro Júnior Sampaio, desta, num
tom provocatório com um espectáculo bizarro e algo
estranho a este público, deixando o espectador desprevenido
algo confuso e reflexivo. Presente pela segunda a Companhia
Livre de Teatro, do Brasil, pelo tom de partilha com o público,
construiu ela mesmo uma página deste festival. A peça, em
estreia absoluta, girando à volta duma relação a três,
cativou pela boa interpretação dos actores. De salientar
que este grupo foi reconhecido com o Prémio Copacabana
2006, prémio financiado pela Tecnicil, mecenas deste
festival. Da capital tivemos a presença de dois grupos, o
Fladu Fla, com a Profesia
di Kriolu, peça estreada em Santiago no Março Mês do
Teatro e Finka Pé, com Maria Badia. Interessante ressalvar que esta segunda peça teve uma
recepção bem mais positiva ali no Mindelo do que na Praia,
talvez pela própria intimidade do espaço onde se realizou
que ajudou à interacção com o público ou até mesmo pela
própria distância que existe entre esta personagem «badia»
com o público mindelense, o que provocaria algum interesse
extra. Ainda no palco principal se apresentou o Grupo de
Teatro Nova Sintra da ilha da Brava com a peça Descarado,
mostrando a simplicidade do fazer teatro, mas com uma
fluidez e humildade interessante a cativante. Sempre a
expressividade dos actores se mostra o ponto alto do
trabalho cénico.
Como
vem sendo hábito, o festival proporcionou para além do
prazer de fruição cénica, a possibilidade de formação.
Realizaram-se as acções de formação: Teatro Africano,
Encenação, Técnica Vocal, Atelier Prático de Cenografia
e Técnica de Clown. Apesar da pouca participação nas
mesmas, de aplaudir estas iniciativas que assim completam a
rica programação deste festival.
É
de apontar o passo fundamental que foi dado nesta edição
do festival, que foi o finalmente se ter activado a politica
de Mecenato, tendo a Tecnicil aberto esta nova Era da
politica de financiamento do teatro.
Neste
Mindelact a variedade que se espera deste tipo de
iniciativa, ultrapassou o esperado, com grupos e estéticas
bem contrastantes. Tivemos «socos na barriga» e
gargalhadas fáceis, tivemos acções de formação e festas
de bar, tivemos a imobilidade do homem-estátua ao lado dos
ritmos de Luanda, tivemos histórias fantásticas ao lado de
provocações bizarras, e em momento algum o público se
entediou. E tivemos ainda lugar á memória com a fantástica
Instalação Cenográfica do espectáculo do ano anterior Auto
da Compadecida. Mais uma vez se fecha um festival com a
abertura das cortinas do próximo, para que não se sinta o
fecho mas sim o «galope» de quem acredita que o Festival
Internacional de Teatro do Mindelo está para ficar!
Micaela Barbosa
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