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| «Mindelact
- um paradigma cénico» - por Micaela Barbosa
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Como
que num ritual, em Setembro, regressou o Mindelact –
Festival Internacional de Teatro à pacata cidade do
Mindelo. E tudo se transforma, o tempo é outro, os espaços
ganham magia e fazendo jus ao «mito do eterno retorno»
teatral, a magia cruza-se com as gentes. Na sua décima
segunda edição, este festival confirma já o seu lugar
cimeiro nas artes cénicas de Cabo Verde e é referência já
consumada das experiências teatrais africanas. Apesar das
parcas condições de produção teatral vivida no país,
este projecto é símbolo ímpar de organização e eficácia.
Este
ano o festival começou logo com a amputação dos recursos
financeiros, mas que apesar de tudo não acinzentou esta
festa, devido ao espírito da equipa de produção, que
teimosamente se esforça por gerir este acontecimento sem se
deixar cair no desânimo. Vem provar que já nada fará
demolir este festival, já é um acontecimento que faz parte
da vida dos cabo-verdianos. E assim aconteceu!
A
programação do festival, como aconteceu nos anos
anteriores prezou pela variedade, sendo que ao nível da
qualidade sentiu-se alguma expectativa frustrada. Alguns
grupos foram presença repetida, o que pesou um pouco na
avaliação por parte do público, que a cada ano que passa
está mais exigente, como se espera. O que vem por si
demonstrar que o festival cria já um universo de
expectativa, faz já parte do projecto teatral desta nação.
E nos pós-espectáculos vive-se informalmente momentos fantásticos
de reflexão colectiva sobre o fazer teatral.

Vindos
de Portugal, Brasil, Canárias, Espanha, Angola e das ilhas,
os grupos convivem lado a lado, trocando experiências tanto
teatrais como pessoais. Mas apesar deste saudável intercâmbio
ainda se sente alguma timidez por parte dos grupos
nacionais, que teimam em se manter um pouco à parte desta
troca, com excepção dos grupos de S. Vicente, que por
questões práticas quase todos têm elementos na organização
o que facilita o convívio. Apesar de algumas situações
menos lúcidas acontecidas no pré-festival com o grupo
Solaris, o certo é que a energia que pairava no festival
fez esquecer estes pequenos quiproquos
e aí os tivemos, os elementos do Solaris a construírem
eles também esta festa. O que demonstra o poder do
Mindelact. O espírito de Dionisios esteve sempre bem
presente entre o palco principal, o pátio e a rua.
E
este espírito dionisíaco foi vivido em pleno no quarto dia
do festival. Completamente off off, os grupos se cruzaram no
bar do festival e entre palavras e músicas sente-se um
verdadeiro ritual orgiástico de partilha de mundos e experiências.
Por volta da meia-noite no Centro Cultural do Mindelo,
cantou-se o fado, a morna, o flamengo andaluz e palavras
cruzadas de outros mundos, num perfeito improviso de festa e
assim se sentiu a verdadeira consciência de festival, de
mundos que se cruzam, não só mundo teatrais mas experiências
pessoais ricas de emoção e risos. E o brilho desta noite
teve eco nos dias seguintes, ecos de felicidade, de
cumplicidade. Pois, como mesmo salienta o seu director, este
festival é batalha ganha, mais que não seja, pelo sentido
de partilha, de amizade e criatividade vivido entre os
grupos participantes.
Mas
sente-se que as questões de qualidade têm peso fundamental
na apreciação do festival, e o público já não é de
conquista fácil, já não se deixa deslumbrar pela única
questão de concretização de um festival, é exigente, o
que me leva a vislumbrar que o Mindelact é um festival que
tem responsabilidades não só ao nível do intercâmbio
teatral como da criação de públicos. E esta questão
esteve bem presente nos bastidores do evento, quando se
questionava que tipo de público é este o do festival, se
é um público que vem ao teatro pela simples motivação lúdica,
ou se é um público reflexivo, que questiona a vida depois
da cortina fechar. Pela reacção do público em peças mais
contemporâneas, onde já não é o riso que toma parte, mas
sim o silêncio cúmplice, facilmente concluo que o
paradigma de recepção é ele mesmo já amplo e rico.

Certamente
observamos fortes aplausos em todos os finais de espectáculo,
característica peculiar do público cabo-verdiano, mas a
respiração do público no decorrer da peça é termómetro
confiável de teorias de recepção. Longe vai o tempo em
que o teatro era somente lúdico, onde se ia ao teatro para
«passar um bom bocado», com o que isso tem de válido
obviamente. Hoje, em pleno festival Mindelact sente-se a
inteligência do público cabo-verdiano, o que provoca uma
reacção muito positiva no próprio fazer teatral. As
consequências desta exigência são a óbvia aprimoração
qualitativa dos projectos cénicos. E neste ponto o festival
teve grande responsabilidade, pois possibilitou o alargar
dos referenciais trazendo estéticas outras até Cabo Verde
e criando um público exigente, possível pelo próprio carácter
dum festival.

Se
nesta minha reflexão salientei o facto do espírito de
festa que se viveu no festival, as boas trocas energéticas
e artísticas entre os agentes teatrais nacionais e
internacionais, o mais importante neste momento é sublinhar
a força deste evento na criação dos paradigmas referenciais,
a eficácia do Mindelact na construção de bases e
conhecimentos necessários aos fazedores de teatro,
diminuindo o fosso com o paradigma universal, acabando com a
desinteressante basofaria nacional, criando um espaço
critico e de crescimento artístico.
Micaela
Barbosa
Fotografia
de João Barbosa
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