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Teatro de Espírito Santo da Silva inaugura edição de dramaturgia nacional

 

Finalmente foi lançada no passado dia 21 de Dezembro a tão esperada e ansiada colecção «Dramaturgia Nacional», editada pela Associação Mindelact com o apoio do Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro. E não poderia ter começado melhor, com um livro de mais de 500 páginas contendo uma colectânea de peças do dramaturgo Espírito Santo da Silva, considerado pelo apresentador da obra como «a pessoa que mais e melhor teatro escreve, hoje, em Cabo Verde». Veja as imagens e leia o texto integral da apresentação, feita por Emanuel Ribeiro, a convite do autor.

 

 

Texto integral de apresentação da obra, da autoria do Engº Emanuel Ribeiro

 

 

Caros convidados, 

 

Estamos aqui para marcar de uma pedra branca este acontecimento histórico: o lançamento da primeira compilação de peças (que se tenha registo) de um dramaturgo Cabo-Verdiano. O seu autor é Espírito Santo da Silva,  meu amigo e companheiro das sete partidas de um teatro Mindelense de outros tempos, aqui presente.  Em primeiro lugar os meus parabéns ao autor  (julgo saber o quanto terá custado ao seu conhecido anti mediatismo este acto público, ele que raramente assiste à encenação das suas peças,  mas a ocasião obriga á sua indispensável presença nesta mesa como progenitor da obra) Os meus parabéns também  como é óbvio ao Mindelact, na pessoa do seu presidente, O Sr. João Branco, a associação que torna este acto possível. Depois,  justificar a minha presença nesta mesa “baptismal”, para, a convite do pai desta obra (e talvez de uma dramaturgia moderna cabo-verdiana) apadrinhar o lançamento de “Espírito Santo Da Silva – Um estranho à minha mesa, Retalhos de vida, Visões Apocalípticas”.

 

Julgo não ter sido escolhido pelo autor pelas minhas parcas competências de teatrólogo ou dramaturgo – pois a ser esse o critério de escolha, com certeza que teria de trocar de lugar com muita gente na assistência – mas com base numa relação, autor – crítico, encenador - actor que dura há anos.  E será exactamente nesse prisma que eu me situarei nesta mesa: Na mesma linha das criticas que eu publiquei sobre as duas ultimas peças deste livro por altura das suas respectivas estreias em palco, continuarei hoje, no momento da sua edição em papel para o grande público, a ser apenas o crítico face ao seu autor, e esgrime-se o grande apreço que eu tenho por este grande Senhor do teatro cabo-verdiano, Espírito Santo Da Silva, tratarei uma vez mais de ser imparcial na análise da primogénita das suas publicações. Sim, porque o que se passa aqui neste momento ultrapassa de longe os afectos ou os eventuais desafectos entre as pessoas presentes nesta mesa  e neste Auditório.

 

O lançamento de um livro é de per si um momento de grande edificação cultural, mas tratando-se de um livro que celebra o teatro não apenas como festa mas como literatura, pode-se dizer que estamos neste momento a contribuir decisivamente para que o nosso teatro deixe de ser um meio para ser um fim. E publicar mais e mais é a única via que eu conheço para que o Teatro  cabo-verdiano deixe de ser aquele parente pobre da nossa literatura.

 

Feito que está este pequeno intróito, eu evitarei na minha apresentação, duas tentações capitais muito usais neste tipo de efeméride.

 

Primeiro, no que diz respeito à caracterização biográfica do autor, eu não me expandirei muito, nomeadamente no que tange ao seu perfil militar do seu estatuto de combatente de liberdade da Pátria,  do   seu conhecido  engajamento cívico e social ou até mesmo  o seu activismo cultural e carreira de encenador no Teatro experimental Frank Cavaquim. Não que isso não ajudasse a entender minimamente determinados aspectos da sua dramaturgia, mas porque a obra é mais importante que o autor e é nela que é preciso concentrar a nossa atenção.

 

Segundo: Não pretenderei aqui traduzir a obra, pois nada é mais claro do que a própria obra. Se é verdade que a boa crítica pode ser para a obra o que o sentido é para a forma, menos não é verdade que muitas vezes o crítico nas suas análises e introspecções, acaba por pôr na pluma do autor intenções de que nem ele suspeita. Conscientes disso, evitaremos pois cair naquele extremo de omnisciência, que Salvador Dali, ironicamente criticava, ao ser questionado por um jornalista, sobre o sentido surrealista de um quadro. Respondia ele assim em tom de segredo:”Para lhe ser sincero devo dizer que não sei! Eu normalmente quando pinto nunca sei o que pinto. Muito depois quando os críticos e entendidos descodificam o sentido do meu quadro é que de facto eu vejo que era isso mesmo que eu queria exprimir”.

 

Ora isto para dizer em duas palavras que não estamos aqui para ensinar Espírito Santo da Silva a entender Espírito Santo da silva. (Seria isso ensinar o nosso pai a fazer filhos!) E nem sequer para fazer uma leitura pictórica ou explicativa dos seus textos, ao ilustre público. Deixamos o ónus da interpretação e recriação subjectivas destes textos aos encenadores e actores, e sobretudo aos potenciais leitores. A nós o que nos interessa, e o que nos tem todos aqui neste momento, é o compromisso bem patente nesta trilogia de peças,  do seu autor   com a nova e  emergente dramaturgia cabo-verdiana, e é neste diapasão que analisaremos esta obra.

 

Antes demais devo dizer que, do meu ponto de vista, Espírito Santo Silva  é a pessoa que mais e melhor Teatro escreve, hoje, em Cabo Verde.  Ao ler os seus eu sinto impulsos, senão de plagiar, deslocar personagens para outros contextos, retomar temas, explorar suas teses e conceitos,   mas,  também e  sobretudo,  proclamar: ninguém escreve como Ele, e ele não escreve como ninguém.

 

Aos espíritos incrédulos – Os não Santos! – essa afirmação de chofre pode parecer gémea da conversa fiada de”Rosalinda” uma das personagens de “Um estranho á minha mesa”, - primeiro texto desta compilação - ou pura insensatez do “Louco”  da peça “retalhos de vida” também presente nesta obra. Por isso apresso-me a acrescentar que tal juízo não se deve apenas, ou principalmente, a critérios estéticos, embora seja extraordinário observar em todas as peças do autor aqui presente, o traço de um estilo que, introspectivo e crítico, próprio de alguém que conhece melhor que ninguém o seu ofício, move-se de jeito leve, com um ar às vezes um pouco desenvolto (distraído seria o termo) como se improvisasse (mas sei que essa impressão é apenas aparente, como aparente é aquela sensação de naturalidade que os grandes actores transmitem). A minha afirmação, dizia eu,  Deve-se, antes de mais à forma única como Espírito Santo da Silva lida com o óbvio, e como a partir do óbvio e do trivial do nosso quotidiano, ele constrói o núcleo estelar das personagens e todo um cosmo cénico, universal e ao mesmo tempo tão nosso.    Dizia Nelson Rodrigues – o génio da dramaturgia Brasileira – que só os profetas enxergam o óbvio. Isto a propósito de certos fenómenos sociais e culturais que, por estarem bem debaixo do nosso nariz, tornam-se invisíveis. Pois bem, nesta trilogia de peças, mas com maior incidência nas suas “Visões Apocalípticas”, Espírito Santo da Silva se  revela um desses visionários, ao se servir com mestria da mola dramática para transformar o óbvio naquele teatro total preconizado pelo seu mestre Richard Wagner*.

 

Tal resultado se deve certamente à competência e ao talento do autor – mistura cada vez mais rara nos dias que correm - o que lhe permite casar toda a sua rigorosa pesquisa com a uma vasta experiência pessoal, numa narrativa prenhe de reminiscências em tom às vezes de conversa, e meias confissões pespontadas de ironia.

 

Num ambiente cultural onde é comum muito excesso de inspiração, ás vezes para tão pouco talento, Espírito Santo Da Silva na sua sóbria dramaturgia parece consciente de que na arte de escrever teatro  “o narcisismo é inimigo natural da inteligência”. Como dizia Constantin Sanislavski* “Antes ame o teatro em você, que você no teatro” E   não obstante E. S.  ser declaradamente da escola de Wagner, parece no entanto na sua dramaturgia seguir á risca este conselho do grande inovador do Teatro de Arte de Moscovo.   Pese embora o senso de humor que nunca falha à sua dramaturgia, e que estabelece a distância necessária entre ele próprio, o criador as suas criaturas, entre a realidade e a ficção, E.S. se mostra na sua escrita quase sempre desconfiado da limpidez das generalidades. Não proclama nenhuma verdade absoluta. Escapa ele desse modo da fábrica das ideias preconcebidas (dos clichés e chavões) em direcção à zona livre dos contactos directos, seja com suas personagens, seja com as teorias do macrocosmo Teatral.  

Pois bem, Espírito Santo Da Silva é uma dramaturgia excepcionalmente rica em todos os aspectos, alinhando-se com um teatro genuinamente Cabo-verdiano que conforme as palavras do presidente do Mindelact,  está a  crescer sem cessar, ainda que no ritmo desordenado, cheio de altos e baixos, que é o da própria vida nacional.

 

Examinado a obra em lançamento à luz da literatura dramática e da teatralidade, pano de fundo sem o qual as peças não adquirem o necessário relevo, Espírito Santo Da Silva obedece a um outro plano e apresenta uma organização cénica inovadora. Para lá de uma estrutura em Actos, quadros e cenas, Espírito Santo propõe o “momento”. As peças são construídas em momentos temporais e cénicos que, na constância da descontinuidade, acabam por partilhar a mesma linha uniforme.

 

È curioso notar porém que a acção dramática não se desenvolve ao redor de um motivo Específico. Ela sustenta-se de uma febre de aforismos e paradoxos própria do autor que acaba por enquadrar as suas peças naquilo que se define com um “teatro de frases”, isto é, um teatro de tese e contradição. Notar ainda que não obstante as peças terem sido escritas em épocas diferentes, obedecendo a razões várias, giram todas ao redor do movimento de renovação da linguagem cénica e estética. Possuem por conseguinte uma unidade da preocupação comum. 

 

Eu que conheço minimamente a vasta obra (ainda não publicada) do Autor desta colectânea posso-vos dizer que estas três peças não poderiam ter sido melhor escolhidas pois representam a suma da produção teatral do autor com o seu estilo de Wagneriano convicto, passado pelo fio do depoimento, da memória e da interpretação da cultura e da sociedade cabo-verdiana.

 

Em “Um estranho à minha mesa” e em “Retalhos de vida” o autor no seu inconfundível estilo epigramático proclama “a paródia, o deboche, os processos cénicos e dramatúrgicos postos à mostra” Já em “Visões apocalípticas” torna-se profeta de uma nova estética e transforma-se no crítico no sentido profissional da palavra, propondo em simultâneo “balizas” para reorientar o nosso teatro, integrando-o ao momento universal.

 

O que evidencia o teatro de Espírito Santo da Silva é sem dúvida “esse espírito de subversão permanente, mas apenas verbal” como “um dos agentes decisivos para o surgimento do moderno teatro Cabo-verdiano”.

 

Mas como não há bela sem senão, apontamos uma pequena deformação: Os textos são muitas vezes deliberadamente muito directos, incisivos, dir-se-ia pouco sentidos, ou pelo menos aparentemente nascidos de um parto muito doloroso, mas há quem diga que este distanciamento e frieza na narrativa sejam uma virtude.

 

Aqui chegamos ao último ponto que comentarei sobre a dramaturgia Espírito Santo Da Silva e que é justamente o seu carácter de impureza, situado entre ensaio filosófico e depoimento intelectual, adoptando porem uma estrutura de sainete. Assim ao lermos estas peças quase que “flagramos” o seu autor nos seus equívocos, ilusões ou acertos, tomamos conhecimento de seu percurso intelectual na esfera do teatro, da importância, que ele concede humildemente à sua própria geração, participamos inclusive do seu deslumbramento e surpresa com a própria juventude.

 

Por essas razões não hesito em afirmar, não por sentimentalidade mas com intenção de testemunho que Espírito Santo Silva,  é tão revolucionário e importante para a dramaturgia moderna Cabo-Verdiana como foi B.Leza para a Morna ao introduzir o famoso Meio-tom. Espírito Santo é o tom acima que faltava à nossa literatura dramática. Ele não pretende como o seu teatro hipnotizar o espectador, mas sim despertá-lo para uma reflexão crítica, e por isso serve-se de processos de "distanciamento", que rompem a ilusão, lembrando ao público que aquilo é apenas teatro e não a vida real.

 

Há quem defina o teatro como uma arte auto destrutiva, sempre “escrita no vento”. O dramaturgos respiram o ar rarefeito dessa efemeridade e muitas vezes a sua única ambição é verem materializadas e confirmadas no palco as suas próprias teorias. É fácil concluir que Espírito Santo Da Silva com esta obra de teatro quer muito mais que isso! 

Muito obrigado.

 

  • Richard Wagner  (1813-1883), músico alemão, não se contentava em escrever a música das suas óperas, mas compunha também os libretos e participava na sua encenação. Deixou alguns textos teóricos importantes, em particular A Obra de Arte do Futuro (1850) e Ópera e Drama (1851). É nestes textos que propõe a noção de Gesamtkunstwerk ou síntese das artes: o que define o drama, a arte total, é a união da música, da mímica, da arquitectura e da pintura para a realização de um fim comum – oferecer ao homem a imagem do mundo (é a partir destas idéias de base que será concebido o Festspielhaus de Bayreuth). A obra de Wagner intervirá como ponto privilegiado de referência em teóricos como Appia e, em menor grau, em Craig, ou nas tentativas de <<teatro total>> e de <<teatro abstrato>> como as da Bauhaus.

  • Constanti Stanislavski, em russo Константин Сергеевич Станиславский actor  desde os 14 anos, um dos fundadores do Teatro de Arte de Moscou, criador do Sistema Stanislavski de actuação realista, ainda hoje básico na arte da representação.

 

Imagens do Lançamento

 

 

Acto de lançamento do livro no Mindelo

Espírito Santo da Silva

 

 

 

João Branco, orgulhoso da colecção

 

 

 

 


mindelact@hotmail.com