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A Lajinha como um espelho do Mindelo

 

O Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo estreia hoje, sexta-feira, 9, a peça “Mulheres na Lajinha”, uma adaptação do romance “Mar da Lajinha” do escritor cabo-verdiano Germano Almeida. A peça, de acordo com o que se pode ler no programa, é uma homenagem às mulheres com mais de 40 anos que ainda não perderam a alegria de viver. Veja a notícia, o texto do programa e a ficha artística do espectáculo.

 

 

   

Por Constância de Pina

www.asemana.cv

 

 

Mulheres na Lajinha” é a terceira peça de teatro que resulta da adaptação de romances de Germano Almeida. Primeiro foi “Os Dois Irmãos” (1999) e depois “Agravos de um Artista" (2000), sempre por iniciativa da GTCCP-ICA.

 

Para João Branco, a estreia desta peça no Março - Mês de Teatro é uma verdadeira prova de fogo para o grupo. “É agora que vamos sentir, de facto, o pulsar desta peça teatral, pela reacção do público. Temos essa responsabilidade, que não é maior do que uma estreia no Mindelact, mas o aval do público é muito importante. Serão três dias seguidos de espectáculos”.

 

Comparando com a pré-estreia no Mindelact 2006, João Branco garante que haverá apenas alterações de pormenores. É que, afirma, as personagens foram bem desenhadas e definidas, mas uma peça teatral é sempre um produto inacabado. “Há sempre coisas a melhorar, a rectificar, sobretudo partes de textos que, se calhar, por serem longas foram cortadas, coisas que acrescentámos... É um trabalho quase artesanal que fizemos para que a peça possa crescer enquanto produto artístico”, esclarece o encenador.

 

Mas “Mulheres na Lajinha” é, por si só, um texto rico, forte e sobretudo para adultos. Isso porque a peça possui uma linguagem brejeira, à Germano Almeida desta última fase. “A peça presta uma homenagem às mulheres com mais de 40 anos que ainda não perderam a alegria de viver. As personagens são quase todas mulheres que têm filhos, estão estabilizadas ou não, separadas ou não, mas vivem a sua vida com alegria”.

 

 

 

 

E as mulheres de São Vicente não poderiam ter escolhido melhor palco, Lajinha, um espaço leve, aberto e saudável. Ana Cordeiro, que faz o off que introduz a peça, diz: “Lajinha é como Praça Nova, um local por onde passa toda a cidade do Mindelo, mas onde muitos dos seus habitantes nunca se encontram ou sequer se cruzam. Os noctívagos cedem lugar aos adeptos dos banhos matinais, da mesma maneira que as brincadeiras das crianças de tenra idade se misturam com os jogos eróticos dos adolescentes”.

 

Neste espaço, diz Cordeiro, em que as rotinas se cruzam, criam-se relações que não ultrapassando esse delimitado território, se prestam a desabafos e inconfidências. Relações que se fazem e desfazem com a rapidez de quem vive à mercê da chegada dos navios e do imprevisível curso da história. “Na Lajinha, cada momento dá-nos uma fracção da cidade, pedaços da sua alma apanhados em fragmentos de conversas, em rostos mais ou menos familiares, em episódios que testemunhamos sem nunca virmos a saber como terminam, ou como começaram”.

 

Já João Branco prefere dizer que em “Mulheres na Lajinha” o público é convidado a ver coisas que geralmente as pessoas não querem que se mostre. São conversas íntimas e/ou de corredores, assuntos que geralmente são tabus. “A peça funciona como um espelho escondido, que não mostra aquilo que as pessoas gostam de assumir como sendo o espelho da sociedade mindelense. A peça mostra a parte mais escondida e retraída, com humor. É uma lição de vida como essas mulheres se comportam, falam e se divertem”, conclui.

 

A peça é apresentada no Centro Cultural do Mindelo, hoje, sexta 9, amanhã e domingo.

 

 

Teatralidade em Germano Almeida  

 

Por João Branco

 

Como já referi publicamente, as obras de Germano Almeida apresentam, na sua maioria, um elevado índice de teatralidade, ou seja quando lemos e nos deliciamos com as suas estóreas, o texto não é achatado pela leitura, antes pelo contrário, a visualização das cenas é quase que imediata, o que nos permite ressaltar a potencialidade visual e auditiva do texto, apreender a sua teatralidade. 

 

Ora, os livros do Germano são autênticas minas para o espectáculo teatral: os ambientes criados não nos são indiferentes, sejam eles da Boavista, do interior de Santiago ou do Mindelo. Neste último caso, podemos mesmo relacionar ou identificar certas situações e personagens dos livros com acontecimentos de que ouvimos falar e pessoas que conhecemos de perto.

 

Em «Mulheres na Lajinha» escolhemos quatro personagens, todos eles femininos. Que falam sem tabus da sua própria vida, de sexo, de traições, de paixões, à boa maneira mindelense, uma vezes com malícia, outras com inocência, outras ainda com ironia maldosa.

 

O palco também pode e deve mostrar a alegria de viver. E este espectáculo pretende ser, antes de tudo, uma homenagem às mulheres cabo-verdianas que, apesar das contrariedades da vida, das desilusões, das agruras e dificuldades de todos os dias, não perderam, antes pelo contrário, a sede de viver, com uma alegria contagiante, a que os banhos matinais e diários na praia da Lajinha não será alheia.

 

É, também, uma homenagem pessoal, às actrizes que compõem o elenco, pelo talento, paciência e dedicação colocada neste trabalho.  

 

 

«Mulheres na Lajinha»

FICHA ARTÍSTICA

 

Adaptação do romance de

Germano Almeida

«O mar na Lajinha»

 

Adaptação Dramatúrgica

Colectivo

 

Encenação, Cenografia

e Direcção Artística

João Branco

 

Figurinos e Adereços

Colectivo

 

Desenho de Luz

César Fortes

 

Interpretação

Elisabete Gonçalves

Ludmilla Évora

Sílvia Lima

Zenaida Alfama

 

Voz Off

Diva Barros

 

Realização do Vídeo

Mirita Veríssimo

 

Design Gráfico

Neu Lopes

 

38ª Produção Teatral do GTCCPM/ICA

 

 


mindelact@hotmail.com