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«A Caderneta» estreia dia 21 de
Abril, na ilha de S. Nicolau
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O
Grupo
de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo - IC,
estreia no próximo dia 21 de Abril, na ilha de S. Nicolau,
a peça «A Caderneta», de Baltasar Lopes da Silva,
encenação que representa a 39ª Produção Teatral deste
grupo mindelense. O espectáculo, que conta com a actriz
Mirita Veríssimo e com o jovem músico Nuno Tavares, tem a
encenação de João Branco e enquadra-se nas comemorações
referentes à revista «Claridade». Dia 26 de Abril, será
a vez da Praia receber esta nova produção do GTCCPM.
Esta
peça corresponde à 39ª Produção Teatral do Grupo de
Teatro do Centro Cultural Português - IC, e responde a um
desafio lançado directamente pelo Presidente da Câmara da
Ribeira Brava ao encenador João Branco, no sentido de
preparar algo para as comemorações do Centenário do grupo
tradicionalmente conhecido como a «Geração Claridade».
Como se pode ler no texto sobre a encenação, a escolha
recaiu sobre o texto de Baltasar Lopes da Silva «A
Caderneta», numa experiência que se renova, já que este
mesmo texto já havia sido encenado pela actriz que agora o
interpreta - Mirita Veríssimo - no âmbito do Festival
Mindelact 2000.
Quais
as grandes diferenças em relação a essa apresentação?
«Bem, o registo de interpretação e de relacionamento com
o público é ligeiramente diferente, neste espectáculo
temos música tocada ao vivo e penso também que o facto de
terem passado 7 anos tornou a actriz mais experiente e mais
bem preparada para enfrentar este desafio, porque o texto
requer de quem o interpreta uma elevada maturidade, humana e
até artística. Acredito que podemos melhorar em relação
ao que foi apresentado nessa altura. Aliás, se não
acreditássemos todos nisso, não tínhamos sequer
enveredado por esta aventura», afirma João Branco.
SOBRE
A ENCENAÇÃO
Uma
re-visitação na primeira pessoa
Obriga
a justiça mais elementar que se diga que este projecto
teatral é, antes de mais, uma aposta pessoal de uma actriz.
Versátil, talentosa e com larga experiência no meio
teatral, Mirita Verssimo tem com este texto de Baltasar
Lopes um relacionamento antigo e apaixonado. Daí que esta
segunda montagem a que se propõem – a primeira acontecera
em 2000, no âmbito do Festival Mindelact – funciona como
uma espécie de re-visitação, guiada por uma direcção cénica
que modifica em alguns pontos a apresentação original. É
o caso da música, nesta versão com uma presença muito
forte, graças à direcção musical e execução do jovem
Nuno Tavares no violão e do relacionamento com o público,
agora talvez mais directo e emocionado. A beleza do texto é
inquestionável e esta pequena equipa só pode esperar que
toque nos corações de quem vir este espectáculo da mesma
forma que tocou no nosso durante o período de montagem.
João
Branco
SOBRE
O TEXTO
A
Caderneta, segundo Arménio Vieira
Para
começar, digamos que este conto, logo de entrada nos
oferece uma nota curiosa: o autor não se cola à pele do
narrador, nem participa, como em algumas peças da mesma
recolha, pelo menos de forma activa, na história. A narração
do caso, pois de um caso se trata, corre por conta da
protagonista, enquanto na sombra, permanece a segunda
personagem, a qual se limita a ouvir.
Uma
epístola talvez pudesse exprimir o conteúdo desta trama,
mas, por certo, de uma forma muito menos viva, e
empobrecendo, sem dúvida, as marcas da oralidade presentes
nesse longo monólogo que é o conto «A Caderneta».
No
plano do conteúdo, a narrativa, entre outras coisas, é uma
referência, em termos dramáticos, à época em que a
prostituição
em Cabo Verde
conhecia o estatuto de «legalidade». A personagem, uma espécie
de meretriz ocasional e envergonhada, é apanhada na rede
montada pelo legislador, a qual obriga as prostitutas ao uso
da caderneta, para fiscalização médica.
A
circunstância socio-económica que envolve o caso não é
descurada pelo autor. O leitor, ao receber a mensagem, sabe
que a protagonista (anónima no texto), desempregada e
relativamente avançada em anos, não dispõem de recursos
para subsistir. Ainda assim, ela faz por conservar certos
valores morais – por exemplo, o respeito que deve ao
filho, o qual fugiu para Inglaterra. Como se vê, uma alusão
ao destino de muitos cabo-verdianos da época.
Um
outro elemento a ter em consideração é o que respeita à
concorrência «profissional» reinante no meio das
meretrizes, levando aqueles que se sentem lesados ao uso da
delação e outros golpes igualmente baixos. Numa das teses
sobre Feurbach, Marx, salvo erro pois cito de memória,
escrevia que as forças socioeconómicas é que determinam a
consciência. Opinião, porventura polémica, mas que o
conto de Baltasar Lopes, em certa medida, parece ilustrar,
esteja ou não presente no espírito do autor a tese atrás
mencionada.
Arménio Vieira
Prefácio
de
«Os Trabalhos e os Dias»
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