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«A Casa de nha Bernarda», 10 anos depois  

 

A abertura da 13ª edição do Festival Mindelact vai ser feita com um dos espectáculos mais emblemáticos do moderno teatro cabo-verdiano. «A Casa de nha Bernarda», de Garcia Lorca, foi apresentada em 1997 e foi um sucesso retumbante. Filmada pela televisão de Cabo Verde, passou vezes sem conta no pequeno ecrã. Ainda hoje, muitos falam da peça onde «todas as mulheres se vestem de negro». É com uma remontagem desta peça e um elenco quase totalmente renovado, que o Grupo de Teatro do CCP-IC vai abrir o Mindelact deste ano. Melhor começo seria difícil.

 

 

O Festival Mindelact 2007 vai abrir as suas portas no próximo dia 08 de Setembro e a peça escolhida para fazer a abertura do evento não poderia ter sido melhor escolhida. Nem mais nem menos a emblemática peça «A Casa de nha Bernarda», adaptação crioula do original de Frederico Garcia Lorca, 10 anos depois de ter sido apresentada, em Novembro de 97, pelo Grupo de Teatro do Centro Cultural Português - IC. Este é o mesmo grupo que leva agora a peça à cena, respondendo também ao apelo de inúmeras pessoas, que de há muito ansiavam pela reposição do espectáculo.

 

Encenada por João Branco, esta peça foi uma das primeiras «crioulizações» levadas a cabo pelo grupo do Centro Cultural Português e o seu enorme sucesso justificaria inclusive a continuação nesta aposta em adaptações de grandes clássicos da dramaturgia nacional. 

 

Sobre a peça e a adaptação, escreveu então o encenador:

 

"Encenar «A Casa de Bernarda Alba» no contexto que vem caracterizando o nosso trabalho, não foi tarefa fácil. Era necessária, do nosso ponto de vista, uma adaptação. O texto original sofreu duas traduções: uma do castelhano para o português, (já estava contemplada na obra a que tivemos acesso), e uma outra do português para o crioulo, no que concerne à maioria das personagens. 

 

Essa tradução não foi somente literária, mas a própria essência da peça, pesada, convencional, lenta e introspectiva, sofreu uma transformação no mínimo interessante. A tradução para o crioulo tornou o texto mais aberto, mais musical, mais próximo da realidade local, um pouco mais moderno. A ambiguidade, tal como na obra original, está presente, mas é nossa convicção que a tradução feita, num trabalho que procurámos fosse o mais rigoroso possível, deu ao ambiente geral da peça um toque de ironia típico da cidade do Mindelo e dos seus cidadãos. De um primitivo ambiente rural passamos para um ambiente urbano, numa época em que o Mindelo registrava grandes movimentações, ampliando o seu cunho de cidade cosmopolita. Sendo o teatro uma arte em movimento não faria sentido, do nosso ponto de vista, encenar a «A Casa de Bernarda Alba» da mesma forma como esta foi feita nas inúmeras adaptações postas em cena em Portugal e no resto do mundo. O Teatro é assim mais uma vez veículo de transformação e a obra que agora é apresentada já não é a que nasceu do punho do dramaturgo, como não o são nenhuma das inúmeras adaptações referidas anteriormente. «A Casa de Nha Bernarda» não deixa de ser uma história que conta o luto imposto por uma mãe severa às suas filhas depois da morte do marido, com o preto, o pranto, a escuridão e a falta de perspectiva de vida sempre presente. «A Casa de Nha Bernarda» não deixa de ser uma sequência de jogos e meias verdades, de sofrimentos, de lutas, de suspiros, de ânsia pela presença masculina, sempre ausente mas sempre tão presente. 

 

Na peça, como no dia a dia de muitas mulheres cabo-verdianas, o homem não está presente, vagueia, dentro de si ou por esse mundo fora em busca de um futuro melhor para si e para os seus. A experiência da solidão feminina é, foi e será vivida por muitas mulheres crioulas. Na peça, como na actualidade, em qualquer parte do planeta, as convenções impostas pela sociedade, sobrepõem-se muitas vezes à felicidade das pessoas, e nesse campo são as mulheres que mais vezes experimentam o amargo sabor da indiferença e da hipocrisia social.  Muitas delas, ainda hoje, só na morte encontram a libertação tão desejada, e essa é uma realidade universal e que faz da obra de Lorca um monumento da dramaturgia contemporânea. 

 

Esta é uma peça onde o que marca na alma é o pranto doce e triste das mulheres abandonadas."

 

 

 

A presente montagem procura ser o mais fiel possível ao original do grupo, mas o elenco foi substancialmente alterado, mantendo-se do elenco original apenas três actrizes: Elisabete Gonçalves, Gabriela Graça e Zenaida Alfama. Das «novas caras» destacam-se Maria Auxilia Cruz no papel de Bernarda, e Luana Jardim, Nadira Delgado, Romilda Silva e Sílvia Lima, nos papeis das filhas de Bernarda. O restante elenco é composto por Mirtó Veríssimo, Glória Sousa, Karina Delgado, Patrícia Alfama e Patrícia Estevão. 

 

 

 

 


mindelact@hotmail.com